quinta-feira, 9 de abril de 2009




A menina que detestava livros


Era uma vez uma menina chamada Mina. Se, num livro, procurassem o significado do seu nome, descobririam que significa «peixe» em antigo sânscrito. Mas Mina não sabia, porque nunca procurava o significado de nada em lado nenhum. Mina detestava ler e detestava livros.
— Estão sempre no meio do caminho — dizia ela. E era verdade, porque em sua casa havia livros por todo o lado. Não apenas nas prateleiras e nas mesinhas-de-cabeceira, onde normalmente há livros, mas em todos os lugares onde geralmente não há livros.

Havia livros dentro de cristaleiras, de cômodas e de roupeiros, em guarda-fatos e em armários e dentro de arcas. Havia livros em cima do sofá e livros nas escadas, livros a abarrotar dentro da lareira e empilhados em cima de cadeiras.
E o pior de tudo era que os pais de Mina estavam sempre a trazer MAIS livros para casa. Passavam a vida a comprar livros, a trazer livros da biblioteca e a encomendar livros através de catálogo. Liam ao pequeno-almoço, ao almoço e ao jantar.

Mas quando perguntavam à Mina se ela queria ler, ela fazia uma birra e gritava: Eu detesto livros! E quando em voz alta tentavam ler-lhe uma história, ela tapava os ouvidos com as mãos e gritava ainda mais alto — EU DETESTO LIVROS!

Havia provavelmente um só ser no mundo que, ainda mais do que Mina, detestava livros. Era o seu gato, Max. Há muito tempo, quando ele era ainda gatinho, caiu-lhe um atlas em cima da cauda. Ficou com a cauda dobrada como um limpa-cachimbos. Desde então, procurava sempre ficar em cima dos livros em vez de ficar debaixo deles.

Uma manhã, depois ter tirado todos os livros do lavatório para lavar os dentes, Mina foi à cozinha preparar o pequeno-almoço para si e para o Max. Primeiro, subiu para cima de uma pilha de volumes de uma enciclopédia, para conseguir chegar aos cereais. Depois, abriu o frigorífico e afastou um monte de revistas para retirar o leite. Deitou um pouco de leite para si e um pouco para o Max.

— Max! — chamou ela. — O pequeno-almoço está pronto!
Mas o Max não aparecia. Tentou novamente.
— Max! — chamou ela. — O pequeno-almoço está pronto! — E ele continuava sem aparecer.
— Onde poderá ele estar? — pensou a Mina. Procurou na banheira e atrás do secador da roupa. Procurou debaixo das escadas e em cima do relógio. Encontrou mais livros, mas não encontrou o Max.

Subitamente, ouviu um grande — Miaaaaaaauu! Correu para a sala de jantar, e lá estava ele, no cimo da pilha de livros mais alta da casa, sem conseguir descer. Esta pilha era formada por todos os livros que os pais estavam sempre a comprar-lhe e que ela sempre se recusava a ler. No fundo da pilha estavam grandes livros ilustrados, como novos, do tempo em que Mina era bebé. No meio, havia livros com o alfabeto e canções de embalar. Em cima, mesmo ao nível do tecto, havia contos de fadas e histórias de aventuras. Os livros estavam todos cobertos de pó.

— Não te preocupes, Max — gritou-lhe Mina.
— Eu vou salvar-te! — E começou a trepar pela pilha de livros acima. De início, foi fácil, porque os livros ilustrados tinham capas duras, e era como se estivesse a subir umas escadas. Mas quando Mina chegou aos livros de capa mole, falhou-lhe o pé num livro de poemas, perdeu o equilíbrio e começou a escorregar.

CATRAPUM! Os livros foram pelos ares. Caíram por todos os lados, as lombadas abriram-se pela primeira vez, e as páginas separaram-se. À medida que os livros iam caindo, iam acontecendo coisas estranhas. Pessoas e animais começaram a cair das páginas e a rebolar pelo chão. Caíam uns em cima dos outros, espalhando os livros e fazendo tombar as cadeiras.
Havia príncipes e princesas, fadas e rãs. E, depois, um lobo e três porquinhos e um troll traquinas em cima de um tronco. O Humpty Dumpty foi pelos ares e depois partiu-se ao meio, por detrás da Mãe-Pata e de uma girafa roxa. Havia elefantes, imperadores, avestruzes e duendes, e uma variedade de macacos, todos emaranhados uns nos outros.

Mas acima de tudo havia coelhos, por todos os lados. Coelhos selvagens, coelhinhos brancos e coelhos de chapéu.
Mina sentou-se no meio daquilo tudo, demasiado surpreendida para se mexer. — Eu pensava que os livros estavam cheios de palavras, não de coelhos! — disse ela, quando caíram mais seis coelhos aos trambolhões de um livro ao seu lado.

Agora, ela já não reconhecia a sala de jantar. O elefante estava equilibrado, em cima de uma mesa de café, a fazer malabarismos com os pratos do melhor serviço. Os macacos tinham arrancado as cortinas e feito delas capas. E os coelhos mordiscavam as pernas da mesa.
— Parem! — gritou Mina. — Voltem para os vossos livros! — Mas havia tantos latidos e grunhidos e passos pesados, que ninguém a ouviu falar. Mina pegou no coelho que estava mais perto dela e tentou metê-lo dentro de um livro de cozinha, mas ele assustou-se tanto, que se contorceu, escapou-se-lhe das mãos e fugiu. Ela abriu outro livro, de onde saíram quatro patos a voar. Voltou a fechá-lo. — Isto não vai resultar — disse Mina. — Não sei a que livro pertence cada um deles. — Pensou por um minuto. — Já sei — disse ela. — Vou perguntar a todos onde pertencem.

Começou por uma criatura estranha que não reconhecia de todo. — Quem és tu? — perguntou ela. — A é de Aardvark! — disse o animal, zangado, e afastou-se à procura do livro do Alfabeto.
Ela encontrou um lobo a chorar debaixo da mesa da sala de jantar e perguntou-lhe onde é que ele pertencia. — Não me recordo se sou do Capuchinho Vermelho ou dos Três Porquinhos! — disse ele a chorar e assoou-se à toalha da mesa. Mas Mina não podia ajudá-lo, porque nunca lera nenhuma das histórias.

Então teve outra ideia. Agarrou no livro que estava mais perto de si e começou a ler em voz alta. — Era uma vez — começou Mina. — Numa terra muito, muito distante…
Devagar, os animais pararam de saltar e de uivar e de falar depressa e de conversar. Aproximaram-se dela para ver o que ia acontecer. Passado pouco tempo, estavam todos sentados em círculo à sua volta, a ouvi-la ler.

Quando Mina chegou ao cimo da segunda página, os porcos que estavam no círculo levantaram-se de um pulo. — Somos nós! — gritaram eles — E a nossa página! Esse é o nosso livro! — Saltaram do círculo, pularam para o colo de Mina e desapareceram dentro dele. Mina fechou-o, antes que eles pudessem pular outra vez cá para fora.
Pegou noutro livro de histórias. Um a um, começou a ler todos os seus livros. E, um a um, os animais encontraram o livro a que pertenciam.

Por fim, ficou na sala apenas um coelhinho vestido com um casaquinho azul. Mina agarrou no livro devagar. Era A História de Pedro Coelho (The Tale of Peter Rabbit, em inglês), — Talvez eu possa ficar com este coelho para mim — pensou ela. Estava a começar a sentir-se sozinha, agora que todos se tinham ido embora.
Mas o coelho ficou à frente de Mina, apoiando-se ora numa pata, ora noutra, nervoso, mexendo o nariz peludo. Estava ansioso por regressar a casa. Então, com um grande suspiro, Mina abriu o último livro. O coelho saltou lá para dentro, abanou a cauda e desapareceu.

A casa ficou em silêncio. O Max estava sentado em cima de uns livros, a lavar a cara. Mina suspirou: — Nunca mais vou voltar a ver aqueles coelhos! — disse ela.
Em seguida reparou que os livros ainda ali estavam, à sua volta. Começou a sorrir.

Quando os pais chegaram a casa nessa tarde, custou-lhes a acreditar no que estavam a ver. Não era por as cortinas terem desaparecido e por os pratos estarem partidos, e as pernas da mesa, roídas. Mas sim porque ali mesmo, no meio da sala, estava Mina. E estava a ler um livro.


Manjusha PawagiA Menina que Detestava LivrosLisboa, Terramar, 2005

sábado, 4 de abril de 2009


( OBS: esse conto é de suspense, por isso é tão comprido, mas não dá medo não, só arrepio....rs)


VENHA VER O PÔR-DO-SOL


Ela subiu sem pressa a tortuosa ladeira. À medida que avançava, as casas iam rareando, modestas casas espalhadas sem simetria e ilhadas em terrenos baldios. No meio da rua sem calçamento, coberta aqui e ali por um mato rasteiro, algumas crianças brincavam de roda. A débil cantiga infantil era a única nota viva na quietude da tarde.
Ele a esperava encostado a uma árvore. Esguio e magro, metido num largo blusão azul‑marinho, cabelos crescidos e desalinhados, tinha um jeito jovial de estudante.
‑ Minha querida Raquel.
Ela encarou‑o, séria. E olhou para os próprios sapatos.
‑ Veja que lama. Só mesmo você inventaria um encontro num lugar destes. Que idéia, Ricardo, que idéia! Tive que descer do táxi lá longe, jamais ele chegaria aqui em cima.
Ele riu entre malicioso e ingênuo.
‑ Jamais? Pensei que viesse vestida esportivamente e agora me aparece nessa elegância! Quando você andava comigo, usava uns sapatões de sete léguas, lembra?
Foi para me dizer isso que você me fez subir até aqui? ‑ perguntou ela, guardando as luvas na bolsa. Tirou um cigarro. ‑ Hein?!
Ah, Raquel... ‑ e ele tomou‑a pelo braço. Você, está uma coisa de linda. E fuma agora uns cigarrinhos pilantras, azul e dourado... Juro que eu tinha que ver ainda uma vez toda essa beleza, sentir esse perfume. Então? Fiz mal?
Podia ter escolhido um outro lugar, não? ‑Abrandara a voz. ‑ E que é isso aí? Um cemitério?
Ele voltou‑se para o velho muro arruinado. Indicou com o olhar o portão de ferro, carcomido pela ferrugem.
‑ Cemitério abandonado, meu anjo. Vivos e mortos, desertaram todos. Nem os fantasmas sobraram, olha aí como as criancinhas brincam sem medo acrescentou apontando as crianças na sua ciranda.
Ela tragou lentamente. Soprou a fumaça na cara do companheiro.
‑ Ricardo e suas idéias. E agora? Qual o programa?
Brandamente ele a tomou pela cintura.
‑ Conheço bem tudo isso, minha gente está, enterrada aí. Vamos entrar um instante e te mostrarei o pôr‑do‑sol mais lindo do mundo.
Ela encarou‑o um instante. Envergou a cabeça para trás numa risada.
‑ Ver o pôr‑do‑sol!... Ali, meu Deus... Fabuloso, fabuloso!... Me implora um último encontro, me atormenta dias seguidos, me faz vir de longe para esta buraqueira, só mais uma vez, só mais uma! E para quê? Para ver o pôr‑do‑sol num cemitério...
Ele riu também, afetando encabulamento como um menino pilhado em falta.
‑ Raquel, minha querida, não faça assim comigo. Você sabe que eu gostaria era de te levar ao meu apartamento, mas fiquei mais pobre ainda, como se isso fosse possível. Moro agora numa pensão horrenda, a dona é uma Medusa que vive espiando pelo buraco da fechadura...
‑ E você acha que eu iria?
‑ Não se zangue, sei que não iria, você está sendo fidelíssima. Então pensei, se pudéssemos conversar um pouco numa rua afastada... ‑ disse ele, aproximando‑se mais. Acariciou‑lhe o braço com as pontas dos dedos. Ficou sério. E aos poucos, inúmeras rugazinhas foram‑se formando em redor dos seus olhos ligeiramente apertados. Os leques de rugas se aprofundaram numa expressão astuta. Não era nesse instante tão jovem como aparentava. Mas logo sorriu e a rede de rugas desapareceu sem deixar vestígio. Voltou‑lhe novamente o ar inexperiente e meio desatento. ‑ Você fez bem em vir.
‑ Quer dizer que o programa... E não podíamos tomar alguma coisa num bar?
‑ Estou sem dinheiro, meu anjo, vê se entende.
‑ Mas eu pago.
‑ Com o dinheiro dele? Prefiro beber formicida. Escolhi este passeio porque é de graça e muito decente, não pode haver um passeio mais decente, não concorda comigo? Até romântico.
Ela olhou em redor. Puxou o braço que ele apertava.
‑ Foi um risco enorme, Ricardo. Ele é ciumentíssimo. Está farto de saber que tive meus casos. Se nos pilha juntos, então sim, quero só ver se alguma das suas fabulosas idéias vai me consertar a vida.
‑ Mas me lembrei deste lugar justamente porque não quero que você se arrisque, meu anjo. Não tem lugar mais discreto do que um cemitério abandonado, veja, completamente abandonado ‑ prosseguiu ele, abrindo o portão. Os velhos gonzos gemeram. ‑ Jamais seu amigo ou um amigo do seu amigo saberá que estivemos aqui.
‑ É um risco enorme, já disse. Não insista nessas brincadeiras, por favor. E se vem um enterro? Não suporto enterros.
Mas enterro de quem? Raquel, Raquel, quan­tas vezes preciso repetir a mesma coisa?! Há séculos ninguém mais é enterrado aqui, acho que nem os ossos sobraram, que bobagem. Vem comigo, pode me dar o braço, não tenha medo.
O mato rasteiro dominava tudo. E não satisfeito de ter‑se alastrado furioso pelos canteiros, subira pelas sepulturas, infiltrara‑se ávido pelos rachões dos mármores, invadira as alamedas de pedregulhos esverdinhados, como se quisesse com sua violenta força de vida cobrir para sempre os últimos vestígios da morte. Foram andando pela longa alameda banhada de sol. Os passos de ambos ressoavam sonoros como uma estranha música feita do som das folhas secas trituradas sobre os pedregulhos. Amuada mas obediente, ela se deixava conduzir como uma criança. Às vezes mostrava certa curiosidade por uma ou outra sepultura com os pálidos, medalhões de retratos esmaltados.
‑ É imenso, hein? E tão miserável, nunca vi um cemitério mais miserável, que deprimente ‑ exclamou ela, atirando a ponta do cigarro na direção de um anjinho de cabeça decepada. ‑ Vamos embora, Ricardo, chega.
‑ Ali, Raquel, olha um pouco para esta tarde! Deprimente por quê? Não sei onde foi que eu li, a beleza não está nem na luz da manhã nem na sombra da noite, está no crepúsculo, nesse meio‑tom, nessa ambigüidade. Estou‑lhe dando um crepúsculo numa bandeja, e você se queixa.
‑ Não gosto de cemitério, já disse. E ainda mais cemitério pobre.
Delicadamente ele beijou‑lhe a mão.
‑ Você prometeu dar um fim de tarde a este seu escravo.
‑ É, mas fiz mal. Pode ser muito engraçado, mas não quero me arriscar mais.
‑ Ele é tão rico assim?
‑ Riquíssimo. Vai me levar agora numa viagem fabulosa até o Oriente. Já ouviu falar no Oriente? Vamos até o Oriente, meu caro...
Ele apanhou um pedregulho e fechou‑o na mão. A pequenina rede de rugas voltou a se estender em redor dos seus olhos. A fisionomia, tão aberta e lisa, repentinamente escureceu, envelhecida. Mas logo o sorriso reapareceu e as rugazinhas sumiram.
‑ Eu também te levei um dia para passear de barco, lembra?
Recostando a cabeça no ombro do homem, ela retardou o passo.
‑ Sabe, Ricardo, acho que você é mesmo meio tantã... Mas apesar de tudo, tenho às vezes saudade daquele tempo. Que ano aquele! Quando penso, não entendo como agüentei tanto, imagine, um ano!
‑ É que você tinha lido A Dama das Camélias, ficou assim toda frágil, toda sentimental. E agora? Que romance você está lendo agora?
‑ Nenhum ‑ respondeu ela, franzindo os lábios. Deteve‑se para ler a inscrição de uma laje des­pedaçada: minha querida esposa, eternas saudades ‑ leu em voz baixa. ‑ Pois sim. Durou pouco essa eternidade.
Ele atirou o pedregulho num canteiro ressequido.
‑ Mas é esse abandono na morte que faz o encanto disto. Não se encontra mais a menor intervenção dos vivos, a estúpida intervenção dos vivos. Veja ‑ disse apontando uma sepultura fendida, a erva daninha brotando insólita de dentro da fenda ‑, o musgo já cobriu o nome na pedra. Por cima do musgo, ainda virão as raízes, depois as folhas... Esta a morte perfeita, nem lembrança, nem saudade, nem o nome sequer. Nem isso.
Ela aconchegou‑se mais a ele. Bocejou.
‑ Está bem, mas agora vamos embora que já me diverti muito, faz tempo que não me divirto tanto, só mesmo um cara como você podia me fazer divertir assim. ‑ Deu‑lhe um rápido beijo na face. ‑Chega, Ricardo, quero ir embora.
‑ Mais alguns passos...
‑ Mas este cemitério não acaba mais, já andamos quilômetros! ‑ Olhou para trás. ‑ Nunca andei tanto, Ricardo, vou ficar exausta.
‑ A boa vida te deixou preguiçosa? Que feio ‑ lamentou ele, impelindo‑a para a frente. ‑ Dobrando esta alameda, fica o jazigo da minha gente, é de lá que se vê o pôr‑do‑sol. Sabe, Raquel, andei muitas vezes por aqui de mãos dadas com minha prima. Tínhamos então doze anos. Todos os domingos minha mãe vinha trazer flores e arrumar nossa capelinha onde já estava enterrado meu pai. Eu e minha priminha vínhamos com ela e ficávamos por aí, de mãos dadas, fazendo tantos planos. Agora as duas estão mortas.
‑ Sua prima também?

Também. Morreu quando completou quinze anos. Não era propriamente bonita, mas tinha uns olhos... Eram assim verdes como os seus, parecidos com os seus. Extraordinário, Raquel, extraordinário como vocês duas... Penso agora que toda a beleza dela residia apenas nos olhos, assim meio oblíquos, como os seus.
Vocês se amaram?
Ela me amou. Foi a única criatura que... Fez um gesto. ‑ Enfim, não tem importância.
Raquel tirou‑lhe o cigarro, tragou e depois devolveu‑o.
‑ Eu gostei de você, Ricardo.'
‑E eu te amei.. E te amo ainda. Percebe agora a diferença?
Um ‑ pássaro rompeu cipreste e soltou um grito. Ela estremeceu.
‑ Esfriou, não? Vamos embora.
‑ Já chegamos, meu anjo. Aqui estão meus mortos.
Pararam diante de uma capelinha coberta: de alto a baixo por uma trepadeira selvagem, que a envolvia num furioso abraço de cipós e folhas. A estreita porta rangeu quando ele a abriu de par em par. A luz invadiu um cubículo de paredes enegrecidas, cheias de estrias de antigas goteiras. No centro do cubículo, um altar meio desmantelado, coberto por uma toalha que adquirira a cor do tempo. Dois vasos de desbotada opalina ladeavam um tosco crucifixo de madeira. Entre os braços da cruz, uma aranha tecera dois triângulos de teias já rompidas, pendendo como farrapos de um manto que alguém colocara sobre os ombros do Cristo. Na parede lateral, à direita da porta, uma portinhola de ferro dando acesso para uma escada de pedra, descendo em caracol para a catacumba.
Ela entrou na ponta dos pés, evitando roçar mesmo de leve naqueles restos da capelinha.
Que triste que é isto, Ricardo. Nunca mais você esteve aqui?
Ele tocou na face da imagem recoberta de poeira. Sorriu, melancólico.

‑ Sei que você gostaria de encontrar tudo limpinho, flores nos vasos, velas, sinais da minha dedicação, certo? Mas já disse que o que mais amo neste cemitério é precisamente este abandono, esta solidão.
As pontes com o outro mundo foram cortadas e aqui a morte se isolou total. Absoluta.
Ela adiantou‑se e espiou através das enferrujadas barras de ferro da portinhola. Na semiobscuridade do subsolo, os gavetões se estendiam ao longo das quatro paredes que formavam um estreito retângulo cinzento.
‑ E lá embaixo?
‑ Pois lá estão as gavetas. E, nas gavetas, minhas raízes. Pó, meu anjo, pó ‑ murmurou ele. Abriu a portinhola e desceu a escada. Aproximou‑se de uma gaveta no centro da parede, segurando firme na alça de bronze, como se fosse puxá‑la. ‑ A cômoda de pedra. Não é grandiosa?
Detendo‑se no topo da escada, ela inclinou‑se mais para ver melhor.
‑ Todas essas gavetas estão cheias?
‑ Cheias?... Só as que têm o retrato e a inscrição, está vendo? Nesta está o retrato da minha mãe, aqui ficou minha mãe ‑ prosseguiu ele, tocando com as pontas dos dedos num medalhão esmaltado embutido no centro da gaveta.
. Ela cruzou os braços. Falou baixinho, um ligeiro tremor na voz.
‑ Vamos, Ricardo, vamos.
‑ Você está com medo.
‑ Claro que não, estou é com frio. Suba e vamos embora, estou com frio!
Ele não respondeu. Adiantara‑se até um dos gavetões na parede oposta e acendeu um fósforo. Inclinou‑se para o medalhão frouxamente iluminado.
‑ A priminha Maria Emília. Lembro‑me até do dia em que tirou esse retrato, duas semanas antes de morrer... Prendeu os cabelos com uma fita azul e veio se exibir, estou bonita? Estou bonita?... ‑ Falava agora consigo mesmo, doce e gravemente. ‑ Não é que fosse bonita, mas os olhos... Venha ver, Raquel, é impressionante como tinha olhos iguais aos seus.
Ela desceu a escada, encolhendo‑se para não esbarrar em nada.
‑ Que frio faz aqui. E que escuro, não estou en­xergando !
Acendendo outro fósforo, ele ofereceu‑o à companheira.
‑ Pegue, dá para ver muito bem... ‑ Afastou­-se para o lado. ‑ Repare nos olhos.
Mas está tão desbotado, mal se vê que é uma moça... ‑ Antes da chama se apagar, aproximou‑a da inscrição feita na pedra. Leu em voz alta, lentamente. ‑ Maria Emília, nascida em vinte de maio de mil e oitocentos e falecida... ‑ Deixou cair o palito e ficou um instante imóvel. ‑ Mas esta não podia ser sua namorada, morreu há mais de cem anos ! Seu menti...
Um baque metálico decepou‑lhe a palavra pelo meio. Olhou em redor. A peça estava deserta. Voltou o olhar para a escada. No topo, Ricardo a observava por detrás da portinhola fechada. Tinha seu sorriso – meio inocente, meio malicioso.
‑ Isto nunca foi o jazigo da sua família, seu mentiroso! Brincadeira mais cretina! ‑ exclamou ela, subindo rapidamente a escada. ‑ Não tem graça nenhuma, ouviu?
Ele esperou que ela chegasse quase a tocar o trinco da portinhola de ferro. Então deu uma volta à chave, arrancou‑a da fechadura e saltou para trás.
Ricardo, abre isto imediatamente! Vamos, imediatamente! ‑ ordenou, torcendo o trinco. ‑ Detesto este tipo de brincadeira, você sabe disso. Seu idiota! É no que dá seguir a cabeça de um idiota desses. Brincadeira mais estúpida!
- Uma réstia de sol vai entrar pela frincha da porta tem uma frincha na porta. Depois vai se afastando devagarzinho, bem devagarzinho. Você terá o pôr-do-sol mais belo do mundo.
Ela sacudia a portinhola.
‑ Ricardo, chega, já disse! Chega! Abre imediatamente, imediatamente! ‑ Sacudiu a portinhola com mais força ainda, agarrou‑se a ela, dependurando‑se por entre as grades. Ficou ofegante, os olhos cheios de lágrimas. Ensaiou um sorriso. ‑ Ouça, meu bem, foi engraçadíssimo, mas agora preciso ir mesmo, vamos, abra...
Ele já não sorria. Estava sério, os olhos diminuídos. Em redor deles, reapareceram as rugazinhas abertas em leque.
Boa noite, Raquel..
Chega, Ricardo! Você vai me pagar!... ‑ gritou ela, estendendo os braços por entre as grades, tentando agarrá‑lo. - Cretino! Me dá a chave desta porcaria, vamos! ‑ exigiu, examinando a fechadura nova em folha. ‑Examinou em seguida as grades cobertas por uma crosta de ferrugem. Imobilizou‑se. Foi erguendo o olhar até a chave que ele balançava pela argola, como um pêndulo. Encarou‑o, apertando contra a grade a face sem cor. Esbugalhou os olhos num espasmo e amoleceu o corpo. Foi escorregando. ‑Não, não...
Voltado ainda para ela, ele chegara até a porta e abriu os braços. Foi puxando, as duas folhas escancaradas.
‑ Boa noite, meu anjo.
Os lábios dela se pregavam um ao outro, como se, entre eles houvesse cola. Os olhos rodavam pesadamente numa expressão embrutecida.
‑ Não..
Guardando a chave no bolso, ele retomou o caminho percorrido.: No breve silêncio, o som dos pedregulhos se entrechocando úmidos sob seus sapatos. E, de repente, o grito medonho, inumano:
NÃO!
Durante algum tempo ele ainda ouviu os gritos que se multiplicaram, semelhantes aos de, um animal sendo, estraçalhado. Depois, os uivos foram ficando mais remotos, abafados como se viessem das profundezas da terra. Assim que atingiu o portão do cemitério, ele lançou ao poente um olhar mortiço. Ficou atento. Nenhum ouvido humano escutaria agora, qualquer chamado. ‑Acendeu um cigarro e foi descendo a ladeira. Crianças ao longe brincavam de roda.

VENHA VER O PÔR-DO-SOL /Lygia Fagundes Telles
Ela subiu sem pressa a tortuosa ladeira. À medida que avançava, as casas iam rareando, modestas casas espalhadas sem simetria e ilhadas em terrenos baldios. No meio da rua sem calçamento, coberta aqui e ali por um mato rasteiro, algumas crianças brincavam de roda. A débil cantiga infantil era a única nota viva na quietude da tarde.
Ele a esperava encostado a uma árvore. Esguio e magro, metido num largo blusão azul‑marinho, cabelos crescidos e desalinhados, tinha um jeito jovial de estudante.
‑ Minha querida Raquel.
Ela encarou‑o, séria. E olhou para os próprios sapatos.
‑ Veja que lama. Só mesmo você inventaria um encontro num lugar destes. Que idéia, Ricardo, que idéia! Tive que descer do táxi lá longe, jamais ele chegaria aqui em cima.
Ele riu entre malicioso e ingênuo.
‑ Jamais? Pensei que viesse vestida esportivamente e agora me aparece nessa elegância! Quando você andava comigo, usava uns sapatões de sete léguas, lembra?
Foi para me dizer isso que você me fez subir até aqui? ‑ perguntou ela, guardando as luvas na bolsa. Tirou um cigarro. ‑ Hein?!
Ah, Raquel... ‑ e ele tomou‑a pelo braço. Você, está uma coisa de linda. E fuma agora uns cigarrinhos pilantras, azul e dourado... Juro que eu tinha que ver ainda uma vez toda essa beleza, sentir esse perfume. Então? Fiz mal?
Podia ter escolhido um outro lugar, não? ‑Abrandara a voz. ‑ E que é isso aí? Um cemitério?
Ele voltou‑se para o velho muro arruinado. Indicou com o olhar o portão de ferro, carcomido pela ferrugem.
‑ Cemitério abandonado, meu anjo. Vivos e mortos, desertaram todos. Nem os fantasmas sobraram, olha aí como as criancinhas brincam sem medo acrescentou apontando as crianças na sua ciranda.
Ela tragou lentamente. Soprou a fumaça na cara do companheiro.
‑ Ricardo e suas idéias. E agora? Qual o programa?
Brandamente ele a tomou pela cintura.
‑ Conheço bem tudo isso, minha gente está, enterrada aí. Vamos entrar um instante e te mostrarei o pôr‑do‑sol mais lindo do mundo.
Ela encarou‑o um instante. Envergou a cabeça para trás numa risada.
‑ Ver o pôr‑do‑sol!... Ali, meu Deus... Fabuloso, fabuloso!... Me implora um último encontro, me atormenta dias seguidos, me faz vir de longe para esta buraqueira, só mais uma vez, só mais uma! E para quê? Para ver o pôr‑do‑sol num cemitério...
Ele riu também, afetando encabulamento como um menino pilhado em falta.
‑ Raquel, minha querida, não faça assim comigo. Você sabe que eu gostaria era de te levar ao meu apartamento, mas fiquei mais pobre ainda, como se isso fosse possível. Moro agora numa pensão horrenda, a dona é uma Medusa que vive espiando pelo buraco da fechadura...
‑ E você acha que eu iria?
‑ Não se zangue, sei que não iria, você está sendo fidelíssima. Então pensei, se pudéssemos conversar um pouco numa rua afastada... ‑ disse ele, aproximando‑se mais. Acariciou‑lhe o braço com as pontas dos dedos. Ficou sério. E aos poucos, inúmeras rugazinhas foram‑se formando em redor dos seus olhos ligeiramente apertados. Os leques de rugas se aprofundaram numa expressão astuta. Não era nesse instante tão jovem como aparentava. Mas logo sorriu e a rede de rugas desapareceu sem deixar vestígio. Voltou‑lhe novamente o ar inexperiente e meio desatento. ‑ Você fez bem em vir.
‑ Quer dizer que o programa... E não podíamos tomar alguma coisa num bar?
‑ Estou sem dinheiro, meu anjo, vê se entende.
‑ Mas eu pago.
‑ Com o dinheiro dele? Prefiro beber formicida. Escolhi este passeio porque é de graça e muito decente, não pode haver um passeio mais decente, não concorda comigo? Até romântico.
Ela olhou em redor. Puxou o braço que ele apertava.
‑ Foi um risco enorme, Ricardo. Ele é ciumentíssimo. Está farto de saber que tive meus casos. Se nos pilha juntos, então sim, quero só ver se alguma das suas fabulosas idéias vai me consertar a vida.
‑ Mas me lembrei deste lugar justamente porque não quero que você se arrisque, meu anjo. Não tem lugar mais discreto do que um cemitério abandonado, veja, completamente abandonado ‑ prosseguiu ele, abrindo o portão. Os velhos gonzos gemeram. ‑ Jamais seu amigo ou um amigo do seu amigo saberá que estivemos aqui.
‑ É um risco enorme, já disse. Não insista nessas brincadeiras, por favor. E se vem um enterro? Não suporto enterros.
Mas enterro de quem? Raquel, Raquel, quan­tas vezes preciso repetir a mesma coisa?! Há séculos ninguém mais é enterrado aqui, acho que nem os ossos sobraram, que bobagem. Vem comigo, pode me dar o braço, não tenha medo.
O mato rasteiro dominava tudo. E não satisfeito de ter‑se alastrado furioso pelos canteiros, subira pelas sepulturas, infiltrara‑se ávido pelos rachões dos mármores, invadira as alamedas de pedregulhos esverdinhados, como se quisesse com sua violenta força de vida cobrir para sempre os últimos vestígios da morte. Foram andando pela longa alameda banhada de sol. Os passos de ambos ressoavam sonoros como uma estranha música feita do som das folhas secas trituradas sobre os pedregulhos. Amuada mas obediente, ela se deixava conduzir como uma criança. Às vezes mostrava certa curiosidade por uma ou outra sepultura com os pálidos, medalhões de retratos esmaltados.
‑ É imenso, hein? E tão miserável, nunca vi um cemitério mais miserável, que deprimente ‑ exclamou ela, atirando a ponta do cigarro na direção de um anjinho de cabeça decepada. ‑ Vamos embora, Ricardo, chega.
‑ Ali, Raquel, olha um pouco para esta tarde! Deprimente por quê? Não sei onde foi que eu li, a beleza não está nem na luz da manhã nem na sombra da noite, está no crepúsculo, nesse meio‑tom, nessa ambigüidade. Estou‑lhe dando um crepúsculo numa bandeja, e você se queixa.
‑ Não gosto de cemitério, já disse. E ainda mais cemitério pobre.
Delicadamente ele beijou‑lhe a mão.
‑ Você prometeu dar um fim de tarde a este seu escravo.
‑ É, mas fiz mal. Pode ser muito engraçado, mas não quero me arriscar mais.
‑ Ele é tão rico assim?
‑ Riquíssimo. Vai me levar agora numa viagem fabulosa até o Oriente. Já ouviu falar no Oriente? Vamos até o Oriente, meu caro...
Ele apanhou um pedregulho e fechou‑o na mão. A pequenina rede de rugas voltou a se estender em redor dos seus olhos. A fisionomia, tão aberta e lisa, repentinamente escureceu, envelhecida. Mas logo o sorriso reapareceu e as rugazinhas sumiram.
‑ Eu também te levei um dia para passear de barco, lembra?
Recostando a cabeça no ombro do homem, ela retardou o passo.
‑ Sabe, Ricardo, acho que você é mesmo meio tantã... Mas apesar de tudo, tenho às vezes saudade daquele tempo. Que ano aquele! Quando penso, não entendo como agüentei tanto, imagine, um ano!
‑ É que você tinha lido A Dama das Camélias, ficou assim toda frágil, toda sentimental. E agora? Que romance você está lendo agora?
‑ Nenhum ‑ respondeu ela, franzindo os lábios. Deteve‑se para ler a inscrição de uma laje des­pedaçada: minha querida esposa, eternas saudades ‑ leu em voz baixa. ‑ Pois sim. Durou pouco essa eternidade.
Ele atirou o pedregulho num canteiro ressequido.
‑ Mas é esse abandono na morte que faz o encanto disto. Não se encontra mais a menor intervenção dos vivos, a estúpida intervenção dos vivos. Veja ‑ disse apontando uma sepultura fendida, a erva daninha brotando insólita de dentro da fenda ‑, o musgo já cobriu o nome na pedra. Por cima do musgo, ainda virão as raízes, depois as folhas... Esta a morte perfeita, nem lembrança, nem saudade, nem o nome sequer. Nem isso.
Ela aconchegou‑se mais a ele. Bocejou.
‑ Está bem, mas agora vamos embora que já me diverti muito, faz tempo que não me divirto tanto, só mesmo um cara como você podia me fazer divertir assim. ‑ Deu‑lhe um rápido beijo na face. ‑Chega, Ricardo, quero ir embora.
‑ Mais alguns passos...
‑ Mas este cemitério não acaba mais, já andamos quilômetros! ‑ Olhou para trás. ‑ Nunca andei tanto, Ricardo, vou ficar exausta.
‑ A boa vida te deixou preguiçosa? Que feio ‑ lamentou ele, impelindo‑a para a frente. ‑ Dobrando esta alameda, fica o jazigo da minha gente, é de lá que se vê o pôr‑do‑sol. Sabe, Raquel, andei muitas vezes por aqui de mãos dadas com minha prima. Tínhamos então doze anos. Todos os domingos minha mãe vinha trazer flores e arrumar nossa capelinha onde já estava enterrado meu pai. Eu e minha priminha vínhamos com ela e ficávamos por aí, de mãos dadas, fazendo tantos planos. Agora as duas estão mortas.
‑ Sua prima também?

Também. Morreu quando completou quinze anos. Não era propriamente bonita, mas tinha uns olhos... Eram assim verdes como os seus, parecidos com os seus. Extraordinário, Raquel, extraordinário como vocês duas... Penso agora que toda a beleza dela residia apenas nos olhos, assim meio oblíquos, como os seus.
Vocês se amaram?
Ela me amou. Foi a única criatura que... Fez um gesto. ‑ Enfim, não tem importância.
Raquel tirou‑lhe o cigarro, tragou e depois devolveu‑o.
‑ Eu gostei de você, Ricardo.'
‑E eu te amei.. E te amo ainda. Percebe agora a diferença?
Um ‑ pássaro rompeu cipreste e soltou um grito. Ela estremeceu.
‑ Esfriou, não? Vamos embora.
‑ Já chegamos, meu anjo. Aqui estão meus mortos.
Pararam diante de uma capelinha coberta: de alto a baixo por uma trepadeira selvagem, que a envolvia num furioso abraço de cipós e folhas. A estreita porta rangeu quando ele a abriu de par em par. A luz invadiu um cubículo de paredes enegrecidas, cheias de estrias de antigas goteiras. No centro do cubículo, um altar meio desmantelado, coberto por uma toalha que adquirira a cor do tempo. Dois vasos de desbotada opalina ladeavam um tosco crucifixo de madeira. Entre os braços da cruz, uma aranha tecera dois triângulos de teias já rompidas, pendendo como farrapos de um manto que alguém colocara sobre os ombros do Cristo. Na parede lateral, à direita da porta, uma portinhola de ferro dando acesso para uma escada de pedra, descendo em caracol para a catacumba.
Ela entrou na ponta dos pés, evitando roçar mesmo de leve naqueles restos da capelinha.
Que triste que é isto, Ricardo. Nunca mais você esteve aqui?
Ele tocou na face da imagem recoberta de poeira. Sorriu, melancólico.

‑ Sei que você gostaria de encontrar tudo limpinho, flores nos vasos, velas, sinais da minha dedicação, certo? Mas já disse que o que mais amo neste cemitério é precisamente este abandono, esta solidão.
As pontes com o outro mundo foram cortadas e aqui a morte se isolou total. Absoluta.
Ela adiantou‑se e espiou através das enferrujadas barras de ferro da portinhola. Na semiobscuridade do subsolo, os gavetões se estendiam ao longo das quatro paredes que formavam um estreito retângulo cinzento.
‑ E lá embaixo?
‑ Pois lá estão as gavetas. E, nas gavetas, minhas raízes. Pó, meu anjo, pó ‑ murmurou ele. Abriu a portinhola e desceu a escada. Aproximou‑se de uma gaveta no centro da parede, segurando firme na alça de bronze, como se fosse puxá‑la. ‑ A cômoda de pedra. Não é grandiosa?
Detendo‑se no topo da escada, ela inclinou‑se mais para ver melhor.
‑ Todas essas gavetas estão cheias?
‑ Cheias?... Só as que têm o retrato e a inscrição, está vendo? Nesta está o retrato da minha mãe, aqui ficou minha mãe ‑ prosseguiu ele, tocando com as pontas dos dedos num medalhão esmaltado embutido no centro da gaveta.
. Ela cruzou os braços. Falou baixinho, um ligeiro tremor na voz.
‑ Vamos, Ricardo, vamos.
‑ Você está com medo.
‑ Claro que não, estou é com frio. Suba e vamos embora, estou com frio!
Ele não respondeu. Adiantara‑se até um dos gavetões na parede oposta e acendeu um fósforo. Inclinou‑se para o medalhão frouxamente iluminado.
‑ A priminha Maria Emília. Lembro‑me até do dia em que tirou esse retrato, duas semanas antes de morrer... Prendeu os cabelos com uma fita azul e veio se exibir, estou bonita? Estou bonita?... ‑ Falava agora consigo mesmo, doce e gravemente. ‑ Não é que fosse bonita, mas os olhos... Venha ver, Raquel, é impressionante como tinha olhos iguais aos seus.
Ela desceu a escada, encolhendo‑se para não esbarrar em nada.
‑ Que frio faz aqui. E que escuro, não estou en­xergando !
Acendendo outro fósforo, ele ofereceu‑o à companheira.
‑ Pegue, dá para ver muito bem... ‑ Afastou­-se para o lado. ‑ Repare nos olhos.
Mas está tão desbotado, mal se vê que é uma moça... ‑ Antes da chama se apagar, aproximou‑a da inscrição feita na pedra. Leu em voz alta, lentamente. ‑ Maria Emília, nascida em vinte de maio de mil e oitocentos e falecida... ‑ Deixou cair o palito e ficou um instante imóvel. ‑ Mas esta não podia ser sua namorada, morreu há mais de cem anos ! Seu menti...
Um baque metálico decepou‑lhe a palavra pelo meio. Olhou em redor. A peça estava deserta. Voltou o olhar para a escada. No topo, Ricardo a observava por detrás da portinhola fechada. Tinha seu sorriso – meio inocente, meio malicioso.
‑ Isto nunca foi o jazigo da sua família, seu mentiroso! Brincadeira mais cretina! ‑ exclamou ela, subindo rapidamente a escada. ‑ Não tem graça nenhuma, ouviu?
Ele esperou que ela chegasse quase a tocar o trinco da portinhola de ferro. Então deu uma volta à chave, arrancou‑a da fechadura e saltou para trás.
Ricardo, abre isto imediatamente! Vamos, imediatamente! ‑ ordenou, torcendo o trinco. ‑ Detesto este tipo de brincadeira, você sabe disso. Seu idiota! É no que dá seguir a cabeça de um idiota desses. Brincadeira mais estúpida!
- Uma réstia de sol vai entrar pela frincha da porta tem uma frincha na porta. Depois vai se afastando devagarzinho, bem devagarzinho. Você terá o pôr-do-sol mais belo do mundo.
Ela sacudia a portinhola.
‑ Ricardo, chega, já disse! Chega! Abre imediatamente, imediatamente! ‑ Sacudiu a portinhola com mais força ainda, agarrou‑se a ela, dependurando‑se por entre as grades. Ficou ofegante, os olhos cheios de lágrimas. Ensaiou um sorriso. ‑ Ouça, meu bem, foi engraçadíssimo, mas agora preciso ir mesmo, vamos, abra...
Ele já não sorria. Estava sério, os olhos diminuídos. Em redor deles, reapareceram as rugazinhas abertas em leque.
Boa noite, Raquel..
Chega, Ricardo! Você vai me pagar!... ‑ gritou ela, estendendo os braços por entre as grades, tentando agarrá‑lo. - Cretino! Me dá a chave desta porcaria, vamos! ‑ exigiu, examinando a fechadura nova em folha. ‑Examinou em seguida as grades cobertas por uma crosta de ferrugem. Imobilizou‑se. Foi erguendo o olhar até a chave que ele balançava pela argola, como um pêndulo. Encarou‑o, apertando contra a grade a face sem cor. Esbugalhou os olhos num espasmo e amoleceu o corpo. Foi escorregando. ‑Não, não...
Voltado ainda para ela, ele chegara até a porta e abriu os braços. Foi puxando, as duas folhas escancaradas.
‑ Boa noite, meu anjo.
Os lábios dela se pregavam um ao outro, como se, entre eles houvesse cola. Os olhos rodavam pesadamente numa expressão embrutecida.
‑ Não..
Guardando a chave no bolso, ele retomou o caminho percorrido.: No breve silêncio, o som dos pedregulhos se entrechocando úmidos sob seus sapatos. E, de repente, o grito medonho, inumano:
NÃO!
Durante algum tempo ele ainda ouviu os gritos que se multiplicaram, semelhantes aos de, um animal sendo, estraçalhado. Depois, os uivos foram ficando mais remotos, abafados como se viessem das profundezas da terra. Assim que atingiu o portão do cemitério, ele lançou ao poente um olhar mortiço. Ficou atento. Nenhum ouvido humano escutaria agora, qualquer chamado. ‑Acendeu um cigarro e foi descendo a ladeira. Crianças ao longe brincavam de roda.
VENHA VER O PÔR-DO-SOL /Lygia Fagundes Telles
Ela subiu sem pressa a tortuosa ladeira. À medida que avançava, as casas iam rareando, modestas casas espalhadas sem simetria e ilhadas em terrenos baldios. No meio da rua sem calçamento, coberta aqui e ali por um mato rasteiro, algumas crianças brincavam de roda. A débil cantiga infantil era a única nota viva na quietude da tarde.
Ele a esperava encostado a uma árvore. Esguio e magro, metido num largo blusão azul‑marinho, cabelos crescidos e desalinhados, tinha um jeito jovial de estudante.
‑ Minha querida Raquel.
Ela encarou‑o, séria. E olhou para os próprios sapatos.
‑ Veja que lama. Só mesmo você inventaria um encontro num lugar destes. Que idéia, Ricardo, que idéia! Tive que descer do táxi lá longe, jamais ele chegaria aqui em cima.
Ele riu entre malicioso e ingênuo.
‑ Jamais? Pensei que viesse vestida esportivamente e agora me aparece nessa elegância! Quando você andava comigo, usava uns sapatões de sete léguas, lembra?
Foi para me dizer isso que você me fez subir até aqui? ‑ perguntou ela, guardando as luvas na bolsa. Tirou um cigarro. ‑ Hein?!
Ah, Raquel... ‑ e ele tomou‑a pelo braço. Você, está uma coisa de linda. E fuma agora uns cigarrinhos pilantras, azul e dourado... Juro que eu tinha que ver ainda uma vez toda essa beleza, sentir esse perfume. Então? Fiz mal?
Podia ter escolhido um outro lugar, não? ‑Abrandara a voz. ‑ E que é isso aí? Um cemitério?
Ele voltou‑se para o velho muro arruinado. Indicou com o olhar o portão de ferro, carcomido pela ferrugem.
‑ Cemitério abandonado, meu anjo. Vivos e mortos, desertaram todos. Nem os fantasmas sobraram, olha aí como as criancinhas brincam sem medo acrescentou apontando as crianças na sua ciranda.
Ela tragou lentamente. Soprou a fumaça na cara do companheiro.
‑ Ricardo e suas idéias. E agora? Qual o programa?
Brandamente ele a tomou pela cintura.
‑ Conheço bem tudo isso, minha gente está, enterrada aí. Vamos entrar um instante e te mostrarei o pôr‑do‑sol mais lindo do mundo.
Ela encarou‑o um instante. Envergou a cabeça para trás numa risada.
‑ Ver o pôr‑do‑sol!... Ali, meu Deus... Fabuloso, fabuloso!... Me implora um último encontro, me atormenta dias seguidos, me faz vir de longe para esta buraqueira, só mais uma vez, só mais uma! E para quê? Para ver o pôr‑do‑sol num cemitério...
Ele riu também, afetando encabulamento como um menino pilhado em falta.
‑ Raquel, minha querida, não faça assim comigo. Você sabe que eu gostaria era de te levar ao meu apartamento, mas fiquei mais pobre ainda, como se isso fosse possível. Moro agora numa pensão horrenda, a dona é uma Medusa que vive espiando pelo buraco da fechadura...
‑ E você acha que eu iria?
‑ Não se zangue, sei que não iria, você está sendo fidelíssima. Então pensei, se pudéssemos conversar um pouco numa rua afastada... ‑ disse ele, aproximando‑se mais. Acariciou‑lhe o braço com as pontas dos dedos. Ficou sério. E aos poucos, inúmeras rugazinhas foram‑se formando em redor dos seus olhos ligeiramente apertados. Os leques de rugas se aprofundaram numa expressão astuta. Não era nesse instante tão jovem como aparentava. Mas logo sorriu e a rede de rugas desapareceu sem deixar vestígio. Voltou‑lhe novamente o ar inexperiente e meio desatento. ‑ Você fez bem em vir.
‑ Quer dizer que o programa... E não podíamos tomar alguma coisa num bar?
‑ Estou sem dinheiro, meu anjo, vê se entende.
‑ Mas eu pago.
‑ Com o dinheiro dele? Prefiro beber formicida. Escolhi este passeio porque é de graça e muito decente, não pode haver um passeio mais decente, não concorda comigo? Até romântico.
Ela olhou em redor. Puxou o braço que ele apertava.
‑ Foi um risco enorme, Ricardo. Ele é ciumentíssimo. Está farto de saber que tive meus casos. Se nos pilha juntos, então sim, quero só ver se alguma das suas fabulosas idéias vai me consertar a vida.
‑ Mas me lembrei deste lugar justamente porque não quero que você se arrisque, meu anjo. Não tem lugar mais discreto do que um cemitério abandonado, veja, completamente abandonado ‑ prosseguiu ele, abrindo o portão. Os velhos gonzos gemeram. ‑ Jamais seu amigo ou um amigo do seu amigo saberá que estivemos aqui.
‑ É um risco enorme, já disse. Não insista nessas brincadeiras, por favor. E se vem um enterro? Não suporto enterros.
Mas enterro de quem? Raquel, Raquel, quan­tas vezes preciso repetir a mesma coisa?! Há séculos ninguém mais é enterrado aqui, acho que nem os ossos sobraram, que bobagem. Vem comigo, pode me dar o braço, não tenha medo.
O mato rasteiro dominava tudo. E não satisfeito de ter‑se alastrado furioso pelos canteiros, subira pelas sepulturas, infiltrara‑se ávido pelos rachões dos mármores, invadira as alamedas de pedregulhos esverdinhados, como se quisesse com sua violenta força de vida cobrir para sempre os últimos vestígios da morte. Foram andando pela longa alameda banhada de sol. Os passos de ambos ressoavam sonoros como uma estranha música feita do som das folhas secas trituradas sobre os pedregulhos. Amuada mas obediente, ela se deixava conduzir como uma criança. Às vezes mostrava certa curiosidade por uma ou outra sepultura com os pálidos, medalhões de retratos esmaltados.
‑ É imenso, hein? E tão miserável, nunca vi um cemitério mais miserável, que deprimente ‑ exclamou ela, atirando a ponta do cigarro na direção de um anjinho de cabeça decepada. ‑ Vamos embora, Ricardo, chega.
‑ Ali, Raquel, olha um pouco para esta tarde! Deprimente por quê? Não sei onde foi que eu li, a beleza não está nem na luz da manhã nem na sombra da noite, está no crepúsculo, nesse meio‑tom, nessa ambigüidade. Estou‑lhe dando um crepúsculo numa bandeja, e você se queixa.
‑ Não gosto de cemitério, já disse. E ainda mais cemitério pobre.
Delicadamente ele beijou‑lhe a mão.
‑ Você prometeu dar um fim de tarde a este seu escravo.
‑ É, mas fiz mal. Pode ser muito engraçado, mas não quero me arriscar mais.
‑ Ele é tão rico assim?
‑ Riquíssimo. Vai me levar agora numa viagem fabulosa até o Oriente. Já ouviu falar no Oriente? Vamos até o Oriente, meu caro...
Ele apanhou um pedregulho e fechou‑o na mão. A pequenina rede de rugas voltou a se estender em redor dos seus olhos. A fisionomia, tão aberta e lisa, repentinamente escureceu, envelhecida. Mas logo o sorriso reapareceu e as rugazinhas sumiram.
‑ Eu também te levei um dia para passear de barco, lembra?
Recostando a cabeça no ombro do homem, ela retardou o passo.
‑ Sabe, Ricardo, acho que você é mesmo meio tantã... Mas apesar de tudo, tenho às vezes saudade daquele tempo. Que ano aquele! Quando penso, não entendo como agüentei tanto, imagine, um ano!
‑ É que você tinha lido A Dama das Camélias, ficou assim toda frágil, toda sentimental. E agora? Que romance você está lendo agora?
‑ Nenhum ‑ respondeu ela, franzindo os lábios. Deteve‑se para ler a inscrição de uma laje des­pedaçada: minha querida esposa, eternas saudades ‑ leu em voz baixa. ‑ Pois sim. Durou pouco essa eternidade.
Ele atirou o pedregulho num canteiro ressequido.
‑ Mas é esse abandono na morte que faz o encanto disto. Não se encontra mais a menor intervenção dos vivos, a estúpida intervenção dos vivos. Veja ‑ disse apontando uma sepultura fendida, a erva daninha brotando insólita de dentro da fenda ‑, o musgo já cobriu o nome na pedra. Por cima do musgo, ainda virão as raízes, depois as folhas... Esta a morte perfeita, nem lembrança, nem saudade, nem o nome sequer. Nem isso.
Ela aconchegou‑se mais a ele. Bocejou.
‑ Está bem, mas agora vamos embora que já me diverti muito, faz tempo que não me divirto tanto, só mesmo um cara como você podia me fazer divertir assim. ‑ Deu‑lhe um rápido beijo na face. ‑Chega, Ricardo, quero ir embora.
‑ Mais alguns passos...
‑ Mas este cemitério não acaba mais, já andamos quilômetros! ‑ Olhou para trás. ‑ Nunca andei tanto, Ricardo, vou ficar exausta.
‑ A boa vida te deixou preguiçosa? Que feio ‑ lamentou ele, impelindo‑a para a frente. ‑ Dobrando esta alameda, fica o jazigo da minha gente, é de lá que se vê o pôr‑do‑sol. Sabe, Raquel, andei muitas vezes por aqui de mãos dadas com minha prima. Tínhamos então doze anos. Todos os domingos minha mãe vinha trazer flores e arrumar nossa capelinha onde já estava enterrado meu pai. Eu e minha priminha vínhamos com ela e ficávamos por aí, de mãos dadas, fazendo tantos planos. Agora as duas estão mortas.
‑ Sua prima também?

Também. Morreu quando completou quinze anos. Não era propriamente bonita, mas tinha uns olhos... Eram assim verdes como os seus, parecidos com os seus. Extraordinário, Raquel, extraordinário como vocês duas... Penso agora que toda a beleza dela residia apenas nos olhos, assim meio oblíquos, como os seus.
Vocês se amaram?
Ela me amou. Foi a única criatura que... Fez um gesto. ‑ Enfim, não tem importância.
Raquel tirou‑lhe o cigarro, tragou e depois devolveu‑o.
‑ Eu gostei de você, Ricardo.'
‑E eu te amei.. E te amo ainda. Percebe agora a diferença?
Um ‑ pássaro rompeu cipreste e soltou um grito. Ela estremeceu.
‑ Esfriou, não? Vamos embora.
‑ Já chegamos, meu anjo. Aqui estão meus mortos.
Pararam diante de uma capelinha coberta: de alto a baixo por uma trepadeira selvagem, que a envolvia num furioso abraço de cipós e folhas. A estreita porta rangeu quando ele a abriu de par em par. A luz invadiu um cubículo de paredes enegrecidas, cheias de estrias de antigas goteiras. No centro do cubículo, um altar meio desmantelado, coberto por uma toalha que adquirira a cor do tempo. Dois vasos de desbotada opalina ladeavam um tosco crucifixo de madeira. Entre os braços da cruz, uma aranha tecera dois triângulos de teias já rompidas, pendendo como farrapos de um manto que alguém colocara sobre os ombros do Cristo. Na parede lateral, à direita da porta, uma portinhola de ferro dando acesso para uma escada de pedra, descendo em caracol para a catacumba.
Ela entrou na ponta dos pés, evitando roçar mesmo de leve naqueles restos da capelinha.
Que triste que é isto, Ricardo. Nunca mais você esteve aqui?
Ele tocou na face da imagem recoberta de poeira. Sorriu, melancólico.

‑ Sei que você gostaria de encontrar tudo limpinho, flores nos vasos, velas, sinais da minha dedicação, certo? Mas já disse que o que mais amo neste cemitério é precisamente este abandono, esta solidão.
As pontes com o outro mundo foram cortadas e aqui a morte se isolou total. Absoluta.
Ela adiantou‑se e espiou através das enferrujadas barras de ferro da portinhola. Na semiobscuridade do subsolo, os gavetões se estendiam ao longo das quatro paredes que formavam um estreito retângulo cinzento.
‑ E lá embaixo?
‑ Pois lá estão as gavetas. E, nas gavetas, minhas raízes. Pó, meu anjo, pó ‑ murmurou ele. Abriu a portinhola e desceu a escada. Aproximou‑se de uma gaveta no centro da parede, segurando firme na alça de bronze, como se fosse puxá‑la. ‑ A cômoda de pedra. Não é grandiosa?
Detendo‑se no topo da escada, ela inclinou‑se mais para ver melhor.
‑ Todas essas gavetas estão cheias?
‑ Cheias?... Só as que têm o retrato e a inscrição, está vendo? Nesta está o retrato da minha mãe, aqui ficou minha mãe ‑ prosseguiu ele, tocando com as pontas dos dedos num medalhão esmaltado embutido no centro da gaveta.
. Ela cruzou os braços. Falou baixinho, um ligeiro tremor na voz.
‑ Vamos, Ricardo, vamos.
‑ Você está com medo.
‑ Claro que não, estou é com frio. Suba e vamos embora, estou com frio!
Ele não respondeu. Adiantara‑se até um dos gavetões na parede oposta e acendeu um fósforo. Inclinou‑se para o medalhão frouxamente iluminado.
‑ A priminha Maria Emília. Lembro‑me até do dia em que tirou esse retrato, duas semanas antes de morrer... Prendeu os cabelos com uma fita azul e veio se exibir, estou bonita? Estou bonita?... ‑ Falava agora consigo mesmo, doce e gravemente. ‑ Não é que fosse bonita, mas os olhos... Venha ver, Raquel, é impressionante como tinha olhos iguais aos seus.
Ela desceu a escada, encolhendo‑se para não esbarrar em nada.
‑ Que frio faz aqui. E que escuro, não estou en­xergando !
Acendendo outro fósforo, ele ofereceu‑o à companheira.
‑ Pegue, dá para ver muito bem... ‑ Afastou­-se para o lado. ‑ Repare nos olhos.
Mas está tão desbotado, mal se vê que é uma moça... ‑ Antes da chama se apagar, aproximou‑a da inscrição feita na pedra. Leu em voz alta, lentamente. ‑ Maria Emília, nascida em vinte de maio de mil e oitocentos e falecida... ‑ Deixou cair o palito e ficou um instante imóvel. ‑ Mas esta não podia ser sua namorada, morreu há mais de cem anos ! Seu menti...
Um baque metálico decepou‑lhe a palavra pelo meio. Olhou em redor. A peça estava deserta. Voltou o olhar para a escada. No topo, Ricardo a observava por detrás da portinhola fechada. Tinha seu sorriso – meio inocente, meio malicioso.
‑ Isto nunca foi o jazigo da sua família, seu mentiroso! Brincadeira mais cretina! ‑ exclamou ela, subindo rapidamente a escada. ‑ Não tem graça nenhuma, ouviu?
Ele esperou que ela chegasse quase a tocar o trinco da portinhola de ferro. Então deu uma volta à chave, arrancou‑a da fechadura e saltou para trás.
Ricardo, abre isto imediatamente! Vamos, imediatamente! ‑ ordenou, torcendo o trinco. ‑ Detesto este tipo de brincadeira, você sabe disso. Seu idiota! É no que dá seguir a cabeça de um idiota desses. Brincadeira mais estúpida!
- Uma réstia de sol vai entrar pela frincha da porta tem uma frincha na porta. Depois vai se afastando devagarzinho, bem devagarzinho. Você terá o pôr-do-sol mais belo do mundo.
Ela sacudia a portinhola.
‑ Ricardo, chega, já disse! Chega! Abre imediatamente, imediatamente! ‑ Sacudiu a portinhola com mais força ainda, agarrou‑se a ela, dependurando‑se por entre as grades. Ficou ofegante, os olhos cheios de lágrimas. Ensaiou um sorriso. ‑ Ouça, meu bem, foi engraçadíssimo, mas agora preciso ir mesmo, vamos, abra...
Ele já não sorria. Estava sério, os olhos diminuídos. Em redor deles, reapareceram as rugazinhas abertas em leque.
Boa noite, Raquel..
Chega, Ricardo! Você vai me pagar!... ‑ gritou ela, estendendo os braços por entre as grades, tentando agarrá‑lo. - Cretino! Me dá a chave desta porcaria, vamos! ‑ exigiu, examinando a fechadura nova em folha. ‑Examinou em seguida as grades cobertas por uma crosta de ferrugem. Imobilizou‑se. Foi erguendo o olhar até a chave que ele balançava pela argola, como um pêndulo. Encarou‑o, apertando contra a grade a face sem cor. Esbugalhou os olhos num espasmo e amoleceu o corpo. Foi escorregando. ‑Não, não...
Voltado ainda para ela, ele chegara até a porta e abriu os braços. Foi puxando, as duas folhas escancaradas.
‑ Boa noite, meu anjo.
Os lábios dela se pregavam um ao outro, como se, entre eles houvesse cola. Os olhos rodavam pesadamente numa expressão embrutecida.
‑ Não..
Guardando a chave no bolso, ele retomou o caminho percorrido.: No breve silêncio, o som dos pedregulhos se entrechocando úmidos sob seus sapatos. E, de repente, o grito medonho, inumano:
NÃO!
Durante algum tempo ele ainda ouviu os gritos que se multiplicaram, semelhantes aos de, um animal sendo, estraçalhado. Depois, os uivos foram ficando mais remotos, abafados como se viessem das profundezas da terra. Assim que atingiu o portão do cemitério, ele lançou ao poente um olhar mortiço. Ficou atento. Nenhum ouvido humano escutaria agora, qualquer chamado. ‑Acendeu um cigarro e foi descendo a ladeira. Crianças ao longe brincavam de roda.


Lygia Fagundes Telles

sexta-feira, 3 de abril de 2009


UM CONTO DE PÁSCOA

Vinte anos se passaram... Estou velho e cansado, sinto que logo, não estarei no meio de vós, por isso quero contar como me tornei o coelho da páscoa.


O sol timidamente surgia por entre as colinas do horto que ficava logo depois do Gólgota. O céu se tingia de vermelho púrpuro, num matiz que é difícil descrever. Toda natureza começava a despertar. Coloquei a cabeça fora da minha toca, espreitando se o caminho estava livre para mais um dia de legumes frescos e capim verdinho. Aqui normalmente, era um lugar calmo, quase não víamos humanos por perto. Poucas vezes o dono do local, um homem chamado José de Arimatéia, vinha ver como estava sua propriedade.


Todavia, nos últimos três dias, houve uma grande movimentação no local; pessoas entrando e saindo, mulheres chorando. O corpo de um homem foi trazido para ser enterrado no sepulcro cavado em uma rocha. Nesse dia, quando José de Arimatéia chegou em companhia de seu amigo Nicodemos, trouxeram o corpo e levaram para dentro do sepulcro. Fui sem me deixar perceber até a entrada da gruta, lá pude ver que se tratava de um homem forte, com estatura alta, cabelos longos. Porém, o que mais me impressionou foi seu rosto. Ele tinha uma expressão de amor que nunca antes havia visto, nem mesmo quando me apaixonei pela coelhinha que passou por aqui. José de Arimatéia e Nicodemos o envolveram num lençol de puro linho e limparam seus ferimentos com ungüentos, depois fizeram uma oração e com a ajuda de outros homens que esperavam do lado de fora, fecharam a entrada do sepulcro com uma enorme pedra. Todos foram embora...


Olhei para o céu... Ele parecia cinzento. As árvores estavam paradas. Os pássaros emudeceram. Senti um frio e voltei para minha toca. Dois dias se passaram... Ao terceiro dia, um domingo radiante, como anteriormente estava descrevendo, saí saltitante... Cabeça baixa fui me deliciando com o capim fresquinho, que naquela manhã parecia especialmente mais verde. De repente me vi diante do sepulcro. Para meu espanto, a enorme pedra que fechava a entrada, estava fora do lugar. Que estranho, pois não vi nenhuma movimentação no sítio. Ninguém havia estado lá durante a noite e nem muito menos naquela manhã. Resolvi dar uma espiadela. Queria ver de novo aquele rosto que transmitia tanto amor.


Fui entrando bem devagar... Meio sorrateiro, afinal naquele escuro minha cor era um ponto negativo para me descobrirem. Quando cheguei ao centro, onde ficava a pedra sobre a qual haviam colocado o corpo, quase morri de susto. Aquele homem do amor, não estava mais lá. Senti um nó na garganta. Quem teria levado ele? Mas como se nada vi? Nenhum barulhinho? E tenho sono leve.Tratei de sair rápido dali... Estava ofegante ao chegar ao solar da gruta. O sol atingiu em cheio meus olhos. Parei um instante para me refazer do choque. Saí procurando alguma pegada ou algo que denunciasse a presença de alguém. Nada. Ao aproximar-me de uma árvore, acho que era uma oliveira, pois com o passar dos anos os detalhes vão sumindo de nossa memória, vi uma intensa luz. Assustado, já tentava fugir, quando ouvi uma voz... Uma voz como posso descrever... Forte mas ao mesmo tempo doce. De uma ternura que nunca antes havia chegado aos meus ouvidos.


- Ei coelhinho! Venha cá! Aproxime-se, não tenha medo.

Medo eu! Como poderia ter medo de uma voz daquela. Mesmo assim, levantei minhas orelhas em estado de alerta. Fui me aproximando pulo ante pulo. Ual! Meus olhos não estavam vendo aquilo. Não! Não era possível. Pensei ter comido algum capim envenenado. Estava delirando, logo iria agonizar. Esfreguei minhas patas contra meu rosto, na esperança de ser apenas uma miragem provocada pelo sol forte. Tudo em vão! Era ele! O homem do amor. Mas como? Eu o tinha visto ser sepultado há dois dias! Não era possível.


- Venha coelhinho, chegue mais perto, não precisa ficar assustado. Você dentre todas as criaturas de Meu Pai, é o primeiro a estar comigo depois que se cumpriu à promessa de que eu ressuscitaria ao terceiro dia. Não posso ainda lhe tocar, porque estou em meu Corpo Glorioso, mas quero que leves uma mensagem.

Dei um pulo meio desequilibrado em sua direção, minhas patas tremiam tanto, que quase não conseguia ficar parado. O homem do amor possuía um magnetismo tão forte, que não conseguia nem desviar meu olhar. Uma paz enorme foi tomando conta de mim. É como se de repente eu me encontrasse numa imensa plantação de cenouras. Fui me chegando. Minhas orelhas nunca ficaram tão grandes.


- Coelhinho, hoje é Domingo de Páscoa. Festa em que os Judeus comemoram a saída do Egito para a liberdade na Terra Prometida por Meu Pai. Eu nasci para selar essa “passagem” do sofrimento de Seu povo para uma vida na Glória do Seu Amor. Coelhinho, eu sou o Cordeiro de Deus, que foi dado em sacrifício para liberdade de todos os homens. A minha ressurreição é para mostrar que todos podem renascer, pelo amor de Meu Pai, para uma nova vida. Doravante, tu vais tornaste símbolo dessa festa e no mundo inteiro serás aclamado como o coelho da Páscoa.


Estava petrificado. Eu, um simples coelho, fora escolhido para uma missão tão importante. E logo por quem, pelo homem do amor, que nada mais é do que o filho do Criador. Puxa! Era demais. Não me contive e dei dois pulinhos de alegria. Ele sorriu... Tinha uma bondade tão grande naquele sorriso que toda natureza sorriu com Ele. Naquele instante ouvi passos. Por entre as árvores surgiu um vulto de mulher. Ela foi em direção ao sepulcro. Ao ver que este se encontrava vazio, começou a chorar e falou:


- O corpo do Mestre foi roubado. Levaram o corpo de Jesus.


Ah! Agora eu sabia o nome do homem do amor. Ele se chamava Jesus. Olhei uma vez mais para aquele Ser de Luz. Quanto orgulho senti em ser seu amigo. A mulher virou-se em nossa direção, o meu amigo Jesus foi ao seu encontro. Voltei para minha toca, ia flutuando. Não cabia em mim de tanta alegria. E assim, termino de lhes contar a verdadeira história de como um simples coelho, se tornou O COELHO DA PÁSCOA.

terça-feira, 17 de março de 2009





Sábios como camelos.

Há muitos anos viveu na Pérsia um grão-vizir - nome dado naquela época aos chefes dos governos - que gostava imenso de ler. Sempre que tinha de viajar ele levava consigo quatrocentos camelos, carregados de livros, e treinados para caminhar em ordem alfabética. O primeiro camelo chamava- se Aba, o segundo Baal, e assim por diante, até ao último, que atendia pelo nome de Zuzá. Era uma verdadeira biblioteca sobre patas. Quando lhe apetecia ler um livro o grão-vizir mandava parar a caravana e ia de camelo em camelo, não descansando antes de encontrar o título certo.Um dia a caravana perdeu-se no deserto.

Os quatrocentos camelos caminhavam em fila, uns atrás dos outros, como um carreirinho de formigas. À frente da cáfila, que é como se chama uma fila de camelos, seguiam o grão-vizir e os seus ministros. Subitamente o céu escureceu, e um vento áspero começou a soprar de leste, cada vez mais forte. As dunas moviam-se como se estivessem vivas. O vento, carregado de areia, magoava a pele.

O grão-vizir mandou que os camelos se juntassem todos, formando um círculo. Mas era demasiado tarde. O uivo do vento abafava as ordens. A areia entrava pela roupa, enfiava-se pelos cabelos, e as pessoas tinham de tapar os olhos para não ficarem cegas. Aquilo durou a tarde inteira. Veio a noite e quando o Sol nasceu o grão-vizir olhou em redor e não foi capaz de descobrir um único dos quatrocentos camelos. Pensou, com horror, que talvez eles tivessem ficado enterrados na areia. Não conseguiu imaginar como seria a vida, dali para a frente, sem um só livro para ler. Regressou muito triste ao seu palácio. Quem lhe contaria histórias?

Os camelos, porém, não tinham morrido. Presos uns aos outros por cordas, e conduzidos por um jovem pastor, haviam sido arrastados pela tempestade de areia até uma região remota do deserto. Durante muito tempo caminharam sem rumo, aos círculos, tentando encontrar uma referência qualquer, um sinal, que os voltasse a colocar no caminho certo. Por toda a parte era só areia, areia, e o ar seco e quente. À noite as estrelas quase se podiam tocar com os dedos.
Ao fim de quinze dias, vendo que os camelos iam morrer de fome, o jovem pastor deu-lhes alguns livros a comer. Comeram primeiro os livros transportados por Aba, ou seja, todos os títulos começados pela letra A. No dia seguinte comeram os livros de Baal. Trezentos e noventa e oito dias depois, quando tinham terminado de comer os livros de Zuzá, viram avançar ao seu encontro um grupo de homens. Eram as tropas do grão-vizir

Conduzido à presença do grão-vizir o jovem guardador de camelos, explicou-lhe, chorando, o que tinha acontecido. Mas este não se comoveu:- Eras tu o responsável pelos livros - disse -, assim por cada livro destruído passarás um dia na prisão.O guardador de camelos fez contas de cabeça, rapidamente, e percebeu que seriam muitos dias. Cada camelo carregava quatrocentos livros, então quatrocentos camelos transportavam cento e sessenta mil! Cento e sessenta mil dias são quatrocentos e quarenta e quatro anos. Muito antes disso morreria de velhice na cadeia.


Dois soldados amarraram-lhe os braços atrás das costas. Já se preparavam para o levar preso, quando Aba, o camelo, se adiantou uns passos e pediu licença para falar:- Não faças isso, meu senhor - disse Aba dirigindo-se ao grão-vizir - esse homem salvou-nos a vida.O grão-vizir olhou para ele espantado:- Meu Deus! O camelo fala- Falo sim, meu senhor - Confirmou Aba, divertido, com o incrédulo silêncio dos homens.- Os livros deram-nos a nós, camelos, a ciência da fala.
Explicou que, tendo comido os livros, os camelos haviam adquirido não apenas a capacidade de falar, mas também o conhecimento que estava em cada livro. Lentamente enumerou de A a Z os títulos que ele, Aba, sabia de cor. Cada camelo conhecia de memória quatrocentos títulos.


- Liberta esse homem - disse Aba -, e sempre que assim o desejares nós viremos até ao vosso palácio para contar histórias.O grão-vizir concordou. Assim, a partir daquele dia, todas as tardes, um camelo subia até ao seu quarto para lhe contar uma história. Na Pérsia, naquela época, era habitual dizer-se de alguém que mostrasse grande inteligência:
- Aquele homem é sábio como um camelo.Isto foi há muito tempo. Mas há quem diga que, quando estão sozinhos, os camelos ainda conversam entre si.Pode ser!

Autor : José Eduardo Agualuza

quinta-feira, 12 de março de 2009

Era um vez um velho muito velho






Uma grande lição.

Era uma vez um velho muito velho, quase cego e surdo, com os joelhos tremendo. Quando se sentava à mesapara comer, mal conseguia segurar a colher. Derramava sopa na toalha e, quando, afinal, acertava a boca,deixava sempre cair um bocado pelos cantos.
O filho e a nora dele achavam que era uma porcaria e ficavam com nojo. Finalmente, acabaram fazendo o velho se sentar num canto atrás do fogão. Levavam comida para ele numa tigela de barro e - o que era pior - nem lhe davam bastante.O velho olhava para a mesa com os olhos compridos, muitas vezes cheios de lágrimas.Um dia, suas mãos tremeram tanto que ele deixou a tigela cair no chão e ela se quebrou.A mulher ralhou com ele, que não disse nada, só suspirou.Depois ela comprou uma gamela de madeira bem baratinha e era aí que ele tinha que comer.Um dia, quando estavam todos sentados na cozinha, o neto do velho, que era um menino de oito anos, estava brincando com uns pedaços de pau.- O que é que você está fazendo? - perguntou o pai.O menino respondeu:- Estou fazendo um cocho, para papai e mamãe poderem comer quando eu crescer.O marido e a mulher se olharam durante algum tempo e caíram no choro. Depois disso, trouxeram o avô de volta para a mesa. Desde então passaram a comer todos juntos e, mesmo quando o velho derramava alguma coisa, ninguém dizia nada.[Irmãos Grimm}Tradução Ana Maria Machado

sexta-feira, 6 de março de 2009

A menina dos fósforos






Estava tanto frio! A neve não parava de cair e a noite aproximava-se. Aquela era a última noite de Dezembro, véspera do dia de Ano Novo. Perdida no meio do frio intenso e da escuridão, uma pobre rapariguinha seguia pela rua fora, com a cabeça descoberta e os pés descalços. É certo que ao sair de casa trazia um par de chinelos, mas não duraram muito tempo, porque eram uns chinelos que já tinham pertencido à mãe, e ficavam-lhe tão grandes, que a menina os perdeu quando teve de atravessar a rua a correr para fugir de um trem. Um dos chinelos desapareceu no meio da neve, e o outro foi apanhado por um garoto que o levou, pensando fazer dele um berço para a irmã mais nova brincar.
Por isso, a rapariguinha seguia com os pés descalços e já roxos de frio; levava no avental uma quantidade de fósforos, e estendia um maço deles a toda a gente que passava, apregoando:
— Quem compra fósforos bons e baratos? — Mas o dia tinha-lhe corrido mal. Ninguém comprara os fósforos, e, portanto, ela ainda não conseguira ganhar um tostão. Sentia fome e frio, e estava com a cara pálida e as faces encovadas. Pobre rapariguinha! Os flocos de neve caíam-lhe sobre os cabelos compridos e loiros, que se encaracolavam graciosamente em volta do pescoço magrinho; mas ela nem pensava nos seus cabelos encaracolados. Através das janelas, as luzes vivas e o cheiro da carne assada chegavam à rua, porque era véspera de Ano Novo. Nisso, sim, é que ela pensava.
Sentou-se no chão e encolheu-se no canto de um portal. Sentia cada vez mais frio, mas não tinha coragem de voltar para casa, porque não vendera um único maço de fósforos, e não podia apresentar nem uma moeda, e o pai era capaz de lhe bater. E afinal, em casa também não havia calor. A família morava numa água-furtada, e o vento metia-se pelos buracos das telhas, apesar de terem tapado com farrapos e palha as fendas maiores. Tinha as mãos quase paralisadas com o frio. Ah, como o calorzinho de um fósforo aceso lhe faria bem! Se ela tirasse um, um só, do maço, e o acendesse na parede para aquecer os dedos! Pegou num fósforo e: Fcht!, a chama espirrou e o fósforo começou a arder! Parecia a chama quente e viva de uma candeia, quando a menina a tapou com a mão. Mas, que luz era aquela? A menina julgou que estava sentada em frente de um fogão de sala cheio de ferros rendilhados, com um guarda-fogo de cobre reluzente. O lume ardia com uma chama tão intensa, e dava um calor tão bom! Mas, o que se passava? A menina estendia já os pés para se aquecer, quando a chama se apagou e o fogão desapareceu. E viu que estava sentada sobre a neve, com a ponta do fósforo queimado na mão.
Riscou outro fósforo, que se acendeu e brilhou, e o lugar em que a luz batia na parede tornou-se transparente como tule. E a rapariguinha viu o interior de uma sala de jantar onde a mesa estava coberta por uma toalha branca, resplandecente de loiças finas, e mesmo no meio da mesa havia um ganso assado, com recheio de ameixas e puré de batata, que fumegava, espalhando um cheiro apetitoso. Mas, que surpresa e que alegria! De repente, o ganso saltou da travessa e rolou para o chão, com o garfo e a faca espetados nas costas, até junto da rapariguinha. O fósforo apagou-se, e a pobre menina só viu na sua frente a parede negra e fria.
E acendeu um terceiro fósforo. Imediatamente se encontrou ajoelhada debaixo de uma enorme árvore de Natal. Era ainda maior e mais rica do que outra que tinha visto no último Natal, através da porta envidraçada, em casa de um rico comerciante. Milhares de velinhas ardiam nos ramos verdes, e figuras de todas as cores, como as que enfeitam as montras das lojas, pareciam sorrir para ela. A menina levantou ambas as mãos para a árvore, mas o fósforo apagou-se, e todas as velas de Natal começaram a subir, a subir, e ela percebeu então que eram apenas as estrelas a brilhar no céu. Uma estrela maior do que as outras desceu em direcção à terra, deixando atrás de si um comprido rasto de luz.
«Foi alguém que morreu», pensou para consigo a menina; porque a avó, a única pessoa que tinha sido boa para ela, mas que já não era viva, dizia-lhe muita vez: «Quando vires uma estrela cadente, é uma alma que vai a caminho do céu.»
Esfregou ainda mais outro fósforo na parede: fez-se uma grande luz, e no meio apareceu a avó, de pé, com uma expressão muito suave, cheia de felicidade!
— Avó! — gritou a menina — leva-me contigo! Quando este fósforo se apagar, eu sei que já não estarás aqui. Vais desaparecer como o fogão de sala, como o ganso assado, e como a árvore de Natal, tão linda.

Riscou imediatamente o punhado de fósforos que restava daquele maço, porque queria que a avó continuasse junto dela, e os fósforos espalharam em redor uma luz tão brilhante como se fosse dia. Nunca a avó lhe parecera tão alta nem tão bonita. Tomou a neta nos braços e, soltando os pés da terra, no meio daquele resplendor, voaram ambas tão alto, tão alto, que já não podiam sentir frio, nem fome, nem desgostos, porque tinham chegado ao reino de Deus.
as ali, naquele canto, junto do portal, quando rompeu a manhã gelada, estava caída uma rapariguinha, com as faces roxas, um sorriso nos lábios… mor ta de frio, na última noite do ano. O dia de Ano Novo nasceu, indiferente ao pequenino cadáver, que ainda tinha no regaço um punhado de fósforos. — Coitadinha, parece que tentou aquecer-se! — exclamou alguém. Mas nunca ninguém soube quantas coisas lindas a menina viu à luz dos fósforos, nem o brilho com que entrou, na companhia da avó, no Ano Novo.
ans Christian Andersen /Os melhores contos de Andersen /Editora Verbo, s/d
Adaptação

quarta-feira, 4 de março de 2009

De quem é a culpa?




Um homem muito pobre vivia penosamente. Não era preguiçoso. Trabalhava sem parar até a exaustão. Mas em vão. Permanecia pobre.
Certo dia, extenuado e desanimado, decidiu chegar a Deus contando-Lhe sentir-se injustiçado, não merecer tal sina e pedir-Lhe para remediar esta situação.
E assim saiu estrada fora.
No caminho encontra um lobo.
–”Bom dia, Senhor viajante! Que prazer em encontrá-lo! Para onde está indo?” Perguntou o lobo.
–”Falar com Deus. Vou-Lhe falar com toda franqueza. Creio que Ele foi injusto comigo e vou pedir-Lhe para corrigir essa injustiça.”
– “Bravo e boa sorte! Encontrando-O, você faria um favor para mim? Diga-Lhe que eu também fui discriminado. O dia todo procuro algo para comer. Em vão! Pergunta-Lhe por que me criou se era para eu morrer de fome? E quanto tempo vai durar ainda este meu tormento?”
– “Está bem,” respondeu o homem, “falarei de você” e prosseguiu seu caminho.
Depois de certo tempo encontrou uma linda moça.
–” Bom dia, Senhor viajante! Para onde vai assim, tão apressado?” perguntou a moça.
–” Falar com Deus, tenho um pedido a Lhe fazer”
E o homem explicou em detalhes o conteúdo da sua pretensão.
–”Desejo-lhe muita sorte! Mas não quer falar de mim também? Diga-Lhe existir na face da terra uma moça, jovem, com boa saúde, bonita, rica, porém infeliz. O que deve fazer ela para alcançar a felicidade?”
–”Pode deixar, falarei de você também” prometeu o homem e seguiu seu caminho.
Andou ainda um bom tempo e depois parou embaixo de uma árvore cujos ramos estavam desprovidos de folhas.
– “Para onde está indo?” Perguntou a árvore.
O homem explicou o que queria fazer.
– ”Sendo assim, não quer falar de mim também? Não consigo entender este meu destino determinado por Ele. Apesar de ter raízes num terreno fértil, meus ramos permanecem sempre sem folhagem. Quando terei, eu também, lindas folhas verdes como as outras árvores?
O homem prometeu falar com Deus a respeito dele e continuou sua viagem.
Andou dias e noites e por fim chegou perto de Deus. Saudou-O com humildade e esperou que Ele falasse primeiro.
–”Com certeza, você veio até aqui para fazer um pedido? Fale! Estou ouvindo.” disse Deus.
–”Dizem ser o Senhor imparcial, tratando todos os homens da mesma maneira. Eis o meu caso: trabalho feito doido, até exaustão, faço de tudo e apesar disso continuo pobre e há dias que faço apenas uma refeição. Conheço muitos, que pouco trabalhando, se tornaram ricos e levam uma vida faustosa. Onde estão a igualdade e a imparcialidade?
– "Muito bem! Vou aceder ao seu pedido. A partir de hoje você poderá se tornar rico e feliz. Vá agora, procure e saiba aproveitar essa tua Sorte.
O homem agradeceu a Deus por Sua bondade mas, antes de ir embora, falou das súplicas do lobo esfomeado, da linda moça infeliz e da árvore de ramos sem folhagem.
Para cada caso Deus deu uma solução. O homem agradeceu novamente e tomou o rumo de volta.
Primeiro, encontrou a árvore.
– “E então, qual foi a resposta?”
– “Ele disse que, exatamente sob tuas raízes, existe um esconderijo onde se encontra uma enorme quantidade de ouro. Enquanto este ouro não for retirado, as raízes não poderão alimentar teus ramos que permanecerão sem folhagem.”
–”Mas isso é formidável!”, regozijou-se a árvore. “Depressa, vai cavando! Pega todo o ouro! Nos dois lucraremos com isso: você ficará rico e eu terei minhas folhas.”
–“Sinto muito, mas não posso. Não tenho tempo a perder. Deus disse para aproveitar a minha Sorte. Vou procurá-la. Até logo!”
E afastou-se a passos largos.
A seguir encontrou a linda moça infeliz que lhe perguntou:
– “Qual foi a resposta de Deus?”
– “Deus disse que para tornar-te feliz deverias casar e dividir com teu esposo as alegrias e tristezas.”
–”Se é assim, case comigo!” Disse a moça , “assim seremos ambos felizes”.
–”Sinto muito, mas não tenho tempo. Deus disse para eu achar a minha Sorte. E é o que vou fazer”.
E saiu correndo à procura de sua Sorte.
O lobo esfomeado o esperava, impaciente. Assim que o viu, correu para ele e disse:
–“E então? Você viu Deus? O que Ele disse?”
–“Calma! Antes quero te contar o que aconteceu. Encontrei uma bela moça querendo saber por que era tão infeliz e a seguir, uma árvore sem folhagem. Ambos também pediram para interceder junto a Deus. Deus disse que a moça deveria casar para ser feliz e ela me propôs casamento. Claro que recusei. Para a árvore disse haver, embaixo das suas raízes, muito ouro e que era só tirar esse ouro e as folhas voltariam a florescer. Imagine que a árvore teve o topete de me pedir para retirar o ouro e ir embora com ele. Claro que de novo recusei! Pois Deus disse-me para procurar e agarrar a minha Sorte. E é isso que vou fazer. Assim vim correndo.”
–”E para mim? Qual é a solução do meu problema?” Indagou o lobo
–“O seu caso é um pouco mais complicado. Você terá que correr e correr sem rumo até encontrar um bobão o qual você devorará para saciar a sua fome.”
–”Onde poderei encontrar um bobão mais perfeito que você” replicou o lobo e devorou o nosso herói..