Mostrando postagens com marcador Contos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Contos. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 29 de junho de 2010

Teu Encanto


Teu Encanto
Eu te amo pela sua beleza (interior e exterior), pela sua sinceridade, pelo seu carinho, seu respeito, seu romantismo,quando lhe conheci demonstrou ser uma mulher cheia de vitalidade, feliz e encantadora, acredito que foi amor a primeira vista porque nos apaixonamos e nos entregamos, sempre te admirei por ser uma pessoa boa, amorosa , sensivel e este sorrrizo encantador..
 
Eu te amo pelo seu amor e pela sua força interior, pelos ajustes e desajustes que passamos juntos, o que não foi facil para ambas as partes,você se tornou para mim um ícone do meu querer, das minhas pretensões de viver momentos de felicidade ao teu lado e juntos podermos viver nosso amor. Sei que por muitas vezes fui injusto contigo e  por muitas vezes erramos juntos e nos afastamos, quase nos perdemos, o que seria um grande prejuizo para nossa história, que ao meu ver é simples mas de boa qualidade porque sempre nos encantamos um com o outro, um amor como o nosso não pode nunca terminar.
 
Devemos respeitar,protejer e cuidar deste sentimento com todo carinho, somos humanos e nossas almas muito afins ,se permitir-mos o fim deste amor e se isso  acontecer, perderemos para sempre, nossos bons momentos e perder tudo que nos foi permitido usufruir pelo destino até agora é cultivar tristeza e infelicidade ,por este motivo te peço, vamos esquecer os contrás a este amor e nos sentir-mos mais.. me ajude a entregar este amor a nossos corações, porque vc é muito importante na minha vida,mas se assim não quizer por algum motivo sólido, devemos  acabar de vez e não deixar mais renascer o que muita falta fará, a solidão será nosso grande aliado nesta transição.
 
Eu te amo pelas suas qualidades e defeitos.Estou com você por você, pelo o que você é, pelo muito que você me dá. Estou falando de carinho, de amor, de sentimento, de força, compreensão, cumplicidade, amizade, de desejo e de amar muitooooo... Estou falando de que vc é realmente importante, do que realmente ficara nesta vida gravado em nossa história.
 
Devemos cultivar melhor o presente e esquecer  o passado e tudo que nos fará desvirtuar deste amor..Sei que estamos passando por uma fase difícil; e como fase, é passageira. Com o tempo tudo vai voltar ao normal, porque você merece e faz por merecer. Encare esta fase como uma fase de aprendizado, de crescimento.E enquanto ela não passa, pode ter certeza que por toda vida estarei sempre ao teu lado, pro que der e vier.Porque EU TE AMO. Às vezes tenho a impressão que foi ontem que lhe amei pela primeira vez, teus beijos e teu carinho, teu sorrizo e teu charme, teus cabelos e este olhar que amo de paixão.Tenho sempre a sensação  que fomos feitos um para o outro apesar das divergências de opinião, como se diz os opostos se atraem e existe muita profundidade no  nosso relacionamento, pela cumplicidade, união... Ainda bem, né!?. Amo você garota e se ainda me ama de verdade diga por favor e não abandone este amor, venha pra mim e sinta o nosso amor bem juntinho ao meu coração..

Mas tudo terminou,hoje só restou magoas e saudades.


Autor: Desconhecido.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

"As Três Arvores"



Havia, no alto da montanha, três pequenas árvores que sonhavam o que seriam depois de grandes. A primeira, olhando as estrelas, disse:- Eu quero ser o baú mais precioso do mundo, cheio de tesouros.
Para tal, até me disponho a ser cortada.

A segunda olhou para o riacho e suspirou:
- Eu quero ser um grande navio para transportar reis e rainhas

A terceira árvore olhou o vale e disse: - Eu quero ficar aqui no alto da montanha e crescer tanto que, as pessoas ao olharem para mim, levantem seus olhos e pensem em Deus.

Muitos anos se passaram, e certo dia vieram três lenhadores e cortaram as três árvores, todas muito ansiosas em serem transformadas naquilo com que sonhavam. Mas lenhadores não costumam ouvir e nem entender sonhos! Que pena!

A primeira árvore acabou sendo transformada num cocho de animais, coberto de feno.

A segunda virou um simples e pequeno barco de pesca, carregando pessoas e peixes todos os dias.

E a terceira, mesmo sonhando em ficar no alto da montanha, acabou cortada em altas vigas e colocada de lado em um depósito.

E todas as três se perguntavam desiludidas e tristes:

- Para que isso? Mas, numa certa noite, cheia de luz e de estrelas, onde havia mil melodias no ar, uma jovem mulher colocou seu neném recém-nascido naquele cocho de animais. E de repente, a primeira árvore percebeu que continha o maior tesouro do mundo!

A segunda árvore, anos mais tarde, acabou transportando um homem que acabou dormindo no barco, mas quando a tempestade quase afundou o pequeno barco, o homem se levantou e disse:

“PAZ”! E num relance, a segunda árvore entendeu que estava carregando o rei dos céus e da terra.

Tempos mais tarde, numa sexta-feira, a terceira árvore espantou-se quando suas vigas foram unidas em forma de cruz e um homem foi pregado nela. Logo, sentiu-se horrível e cruel. Mas, logo no domingo, o mundo vibrou de alegria e a terceira árvore entendeu que nela havia sido pregado um homem para salvação da humanidade, e que as pessoas sempre se lembrariam de Deus e de seu filho Jesus Cristo ao olharem para ela.

As árvores haviam tido sonhos… Mas as suas realizações foram mil vezes melhores e mais sábias do que haviam imaginado.

Temos os nossos sonhos e nossos planos que, por vezes, não coincidem com os planos que Deus tem para nós; e, quase sempre, somos surpreendidos com a sua generosidade e misericórdia. É importante compreendermos que tudo vem de Deus, acreditarmos, termos fé, pois Ele sabe muito bem o que é melhor para cada um de nós.


Autor: desconhecido

segunda-feira, 5 de abril de 2010

A História da Páscoa!


Feliz Páscoa!!!!


A primeira Páscoa aconteceu lá no Antigo Testamento (Êxodo 12), quando Deus mandou Moisés tirar o seu povo do Egito, pois estavam lá como escravos, e Deus queria que eles voltassem a ser livres.

Antes do povo hebreu partir, cada família deveria preparar em casa a última refeição antes da longa viagem que fariam pelo deserto.


Prepararam um cordeiro assado, pães ázimos (sem fermento, para lembrar que saíram com pressa do Egito) e ervas amargas (para lembrar do sofrimento do povo no deserto, rumo à Terra Prometida). Todas as casas deveriam passar o sangue do cordeiro nos umbrais das portas, como sinal da submissão a Deus e também para preservar a vida. Esta Páscoa, para os hebreus, representou um tempo de esperança e libertação, a passagem pelo deserto para chegar em um lugar preparado por Deus, muito melhor de se viver.

Essa tradição foi mantida pelo povo de Deus ao longo dos anos e das gerações. O ritual era repetido para lembrar que Deus libertou e caminhou com o povo de Israel. E Deus caminha até hoje conosco, que somos também seu povo.

E Deus deseja nos libertar mais uma vez. Deseja se relacionar conosco e nos amar. Como prova desse amor, Deus mandou seu Filho Jesus para nos salvar e dar vida eterna. Antes da sua morte, Jesus celebrou a última Páscoa com seus discípulos (Lucas 22.7-20), instituindo a Santa Ceia - que é celebrada por nós até hoje. Naquele momento, Jesus estava dizendo que se entregaria em nosso lugar, para que vivêssemos com Ele. Cristo morreu em nosso lugar, na cruz, nos libertando do nosso pecado.

Mas depois de três dias, Jesus ressuscitou! Assim como a lagarta no casulo se transforma em uma linda borboleta, Jesus deixou o túmulo e voltou a viver. Ele foi para junto do Pai, mas deixou conosco o consolador e animador, o Espírito Santo.

E hoje o nosso desafio, cristãos, é continuar anunciando a vida plena que Jesus pode dar. Essa é a história do Deus que ama seu povo e deseja andar sempre com ele. Deus ama você e sua família e deseja transformar sua história, trazendo-lhe vida abundante!

Para nós, cristãos, a Páscoa é a festa que comemora a ressurreição de Jesus Cristo.
Para os judeus, os descendentes dos hebreus, a Páscoa é a festa que comemora a saída dos hebreus do Egito, onde eram escravos. Embora sejam acontecimentos diferentes, tanto a Páscoa cristã como a judaica têm o mesmo sentido: a libertação.

sábado, 27 de março de 2010

A Flor da Amizade


Era uma vez uma flor que nasceu no meio das pedras.Quem sabe como,conseguiu crescer e ser um sinal de vida no meio de tanta tristeza...
Passou uma jovem e ficou admirada com a flor.Logo pensou em Deus.Cortou a flor e levou para a igreja.Mas.após uma semana a flor morreu.
Passou um homem,viu a flor e pensou em Deus,agradeceu e a deixou ali;Não quis corta-la para não mata-la.Mais dias depois veio uma tempestade e a flor morreu.
Passou uma criança e achou que a flor era parecida com ela:bonita e sozinha.
Decidiu voltar todos os dias...Um dia regou,no outro trouxe terra,outro dia podou,depois fez um canteiro,colocou adubo...
Um mês depois onde tinham pedras e uma flor agora tinha um jardim!
Assim cultiva uma amizade!

sexta-feira, 26 de março de 2010

Jogo do Compasso-História de Terror



AVISO:quem tem medo,não gosta de histórias de terror não leia!Essa história pode ser fraca para varias pessoas mais pode ser forte para outras.Para Mim essa História pode realmente acontecer,para outras podem ser só uma lenda

Três jovens com idade de quinze anos cada um, descobrem em um livro uma brincadeira onde se usa um compasso e um círculo com letras para atrair espíritos e poder prever o futuro. Era década 70 onde muitas coisas novas estavam sendo descobertas. Assim fizeram, Alice, Rogério e Ludmila. Se ruiniram na casa de Alice que estaria sozinha em uma noite de luar naquele verão. Sentaram-se na mesa da cozinha, desenharam um círculo em um papel, escreveram as letras do alfabeto acompanhando o desenho e as palavras "Sim" e "Não" nas laterais. Antes de começarem eles conversam e com um pouco de medo se certificam do ato. Rogério começa, segura o compasso no centro e pergunta se eles podem iniciar as brincadeiras: O compasso gira, gira e cai no Sim. As meninas começam a rir e dizem que ele fez de propósito, mas Rogério jura que não. Ludmila é a segunda a mexer e pergunta se o espírito que está com eles é homem ou mulher, e mais uma vez o compasso gira mas não aponta para nenhum lugar, ela desiste e passa a vez para Alice que insiste na mesma pergunta mas desta vez eles constatam que quem está com eles é um homem. Os amigos muitas vezes param e começam a rir um das caras dos outros mas com o passar das horas o assunto vai ficando sério. Em uma de suas perguntas Rogério questiona o espírito sobre como haveria sido sua morte. A resposta é breve: "Dolorosa" o compasso soletra em suas voltas. Eles cada vez mais vão ficando curiosos, e vão se esquecendo que quanto mais tempo eles segurarem um espírito mais almas poderão ser atraídas para perto deles. Alice faz uma pergunta curiosa e assustadora: "Como era a pessoa que havia matado Paul, como era chamado o homem americano que estava em forma de espírito respondendo as perguntas." Letra por letra o compasso roda, e ele descreve como uma pessoa de máscara branca e roupa preta que com uma faca o esquartejou.Alice fica assustada e larga o compasso que misteriosamente faz um pequeno movimento na mesa, mas que ninguém percebe.
Já completava duas horas que eles estavam atraíndo espíritos para dentro da casa de Alice. Ludmila começa a duvidar da veracidade do espírito e pede uma prova. O compasso roda, roda, roda e nada acontece quando Ludmila que estava apoiada na mesa acaba escorregando e enfiando a ponta do compasso em sua mão. O corte havia sido bem grande e muito sangue estava na mão esquerda da menina. Os amigos desistem na hora da brincadeira e ajudam a fazer curativos.O que eles não esperavam era que a maldição estava apenas começando. Um mês depois do susto eles decidem terminar a brincadeira, porque assim como tinham pedido para entrar na brincadeira, com o acidente de Ludmila haviam esquecido de perdir para sair. Recomeçam o jogo, Rogério pede para que Paul retorne mas não tem resultados o mesmo aconteceu com Alice e com Ludmila foi diferente, Paul retorna e gira o compasso até se formar a palavra "Sorry" onde dizia-se responsável pelo acidente da menina. Todos ficam aterrorizados e conseguem sair da brincadeira e juram guardar segredo sobre aquilo. Dez anos se passam. Alice, Rogério e Ludmila não se falavam mais devido ao rumo que a vida de cada um havia tomado. Ludmila havia se tornado uma pessoa que se interessava por assuntos místicos e acabou descobrindo que quando uma pessoa é ferida em alguma brincadeira com espírito ela carregaria o mal por toda sua vida. Com isso, começou a buscar ajuda em vários lugares espíritas. Pensando estar livre, segue sua vida com muita felicidade. Agora nos dias atuais, Ludmila já estava casada e tinha uma filha de 7 anos. Nos últimos meses ela não estava muito bem, na maior parte do tempo sentia-se inquieta e tinha muitas dores na mão onde o compasso havia machucado. Ela já havia deixado o espíritismo de lado, mas volta a pegar seus livros para fazer algum ritual de cura. Assim em uma noite em que ela estava sozinha, fez várias rezas, sentiu-se mais leve e foi dormir. Seu marido chega por volta das onze horas da noite com sua filha pois haviam ido à uma festinha de aniversário. Ludmila nem percebe e dorme em sono profundo. Passava das duas da manhã, Ludmila se levanta sem fazer qualquer barulho, parecendo estar com hipnose vai até o escritório da casa pega um estilete e caminha em direção ao quarto de sua filha, entra quieta chega perto da menina. A pega pelo pescoço e com uma força animal a joga contra a porta do quarto, a pequena criança perde a fala e não consegue gritar. O pai dormia profundamente e nada ouviu pois o quarto do casal ficava no andar de cima da casa. Ludmila ergue o estilete e violentamente ataca sua filha que tenta se defender com a mão mas de que nada adianta. A criança quase morrendo olha para Ludmila e diz "Mamãe te amo" e caí toda ensangüentada perto da porta de seu quarto que estava com a marca de sua mão.Ludmila em transe segue para seu quarto com a intensão de matar seu marido, mas desta vez utiliza de uma faca que pegou na cozinha. Com muito ódio dá um golpe certeiro em seu marido que morre na hora, após isso passa a faca no corpo arrancando toda a pele. Muito sangue estava na cama, Ludmila muito calma se deita como se nada tivesse acontecido. Dorme por umas duas horas, o relógio marca quatro da manhã, Ludmila acorda com um barulho, quando olha para seu lado vê muito sangue e seu marido morto, grita desesperadamente e sai correndo pela casa. Quando chega na sala se depara com um vulto de um pessoa alta. Ela se assusta e fica sem reação, aquela coisa se aproxima dela e diz que ela o libertou do mundo dos mortos quando matou seus dois familiares e diz que ele esteve dentro dela desde o dia da brincadeira do compasso onde ela havia se machucado. Ludmila olha no rosto e nota que possui uma máscara branca, capa preta e uma faca em sua mão, do mesmo modo que o espírito havia contado para eles no dia da brincadeira. Na verdade Paul apenas iludiu os garotos e ele não era uma simples pessoa e sim um dos Demônios das trevas agora livre. O espírito ficou dentro dela por todos esses anos até achar um modo de sair e ficar livre. O dêmonio olha para Ludmila e sem piedade enfia a faca em seu olho, a lâmina atravessa e sai do outro lado da cabeça. E assim como ela fez com seu marido, o espírito fez com ela, arrancou sua pele e com seu sangue, perto de seu corpo escreveu "Sorry", a mesma palavra que ela viu quando havia se machucado durante a Brincadeira do Compasso.

quinta-feira, 25 de março de 2010

O que é Amor???




Em uma vilazinha do interior, havia uma pequena escola que comportava todas as crianças da região.

Uma professora em especial, era muito querida pelos seus pequenos alunos.

Eles sentiam-se tão a vontade em sua presença, que não hesitavam em perguntar o que lhes viesse à cabeça.

Durante uma aula, um aluninho perguntou:

- Professora, o que é o amor?

A professora sentiu que a criança merecia uma resposta à altura da pergunta que fizera, e pensou em um modo de explicar na prática, para que todos compreendessem melhor.

Como já estava na hora do recreio, pediu para que cada aluno desse uma volta pelo pátio da escola e que cada um trouxesse o que mais despertasse nele, o sentimento de amor.

Assim, a resposta serviria para todos e seria melhor entendida.
As crianças saíram apressadas e findo o recreio voltaram entusiasmadas.

A professora então pede:

- Quero que cada um mostre o que trouxe consigo.

A primeira criança disse:

- Eu trouxe esta flor, não é linda?
Vou levá-la para casa e colocá-la em um vaso bem bonito.

A segunda criança falou:

- Eu trouxe esta borboleta.
Veja o colorido de suas asas, vou colocá-la em minha coleção.

A terceira criança completou:

- Eu trouxe este filhote de passarinho.
Ele havia caído do ninho junto com
outro irmão.
Não é uma gracinha?

E assim as crianças foram se colocando,
uma a uma.

Quando todos já haviam apresentado o que cada um trouxe, a professora notou que havia uma criança que tinha ficado quieta o tempo todo.

Ela estava vermelha de vergonha, pois nada havia trazido.

A professora se dirigiu a ela e perguntou:

- Meu bem, por quê você não trouxe alguma coisa?

E a criança timidamente respondeu:

- Desculpe professora.
Vi a flor, senti o seu perfume, pensei em arrancá-la, mas preferi deixá-la para que seu perfume exalasse por mais tempo e as pessoas pudessem contemplar sua beleza.

Vi também a borboleta, leve, colorida!
Ela parecia tão feliz voando de lá para cá, que
não tive coragem de aprisioná-la.

Vi também um passarinho caído entre as folhas, mas ao subir na árvore notei o olhar triste de sua mãe e preferi devolvê-lo ao ninho.

Portanto professora, trago comigo o perfume da flor, a sensação de liberdade da borboleta e a gratidão que senti nos olhos da mãe
do passarinho.

A professora agradeceu emocionada àquela criança e lhe deu nota máxima.

Essa criança, dentre todas, fora a única que percebera que só podemos trazer o amor
no coração.

Somente no coração...

sábado, 20 de março de 2010

A Menina

Acelerando seu Vectra, um empresário dirigia-se à cidade como fazia frequentemente para trabalhar.

Nunca prestara atenção aquela casa humilde, quase escondida do desvio da estrada e, naquele dia, experimentou a insistente curiosidade. Quem morava ali?

Cedendo ao impulso aproximou-se contornou a residência e sem descer do carro, olhou por uma janela aberta bem na frente, e viu uma garotinha de aproximadamente 10 anos, ajoelhada, mão postas, olhos lacrimejantes.

Não se contendo, perguntou então o empresário:

- Que fazes você aí minha filha?

- Estou orando à DEUS pedindo socorro! Meu pai morreu, minha mãe está muito doente e meus quatro irmãos tem fome.

- Que bobagem, o céu não ajuda ninguém, está muito distante. Temos que nos virar sozinhos.

Embora irreverente e um tanto rude, era um homem de bom coração. Compadecendo-se, tirou do bolso uma boa soma de dinheiro e entregou à menina.

- Aí está. Vá comprar comida para os irmãos e remédio para a mamãe e esqueça a oração.

Isto feito, retornou à estrada. Antes de completar 200 metros, decidiu verificar se sua orientação estava sendo observada, mas para a sua surpresa, a pequena devota continuava de joelhos.

- Ora essa, menina.. Porque não vai fazer o que recomendei. Não lhe expliquei que não adianta pedir?

Então a menina feliz respondeu:
- Já não estou mais pedindo. Estou apenas agradecendo. Pedi à Deus e ele enviou o Senhor.

quinta-feira, 4 de junho de 2009



Fita Verde no Cabelo
"HAVIA UMA ALDEIA em algum lugar, nem maior nem menor, com velhos e velhas que velhavam, homens e mulheres que esperavam, meninos e meninas que nasciam e cresciam. Todos com juízo, suficientemente, menos uma menininha, a que por enquanto. Aquela um dia, saiu de lá, com uma fita verde inventada no cabelo.

Sua mãe mandara-a com um cesto e um pote, à avó, que a amava, a uma outra e quase igualzinha aldeia. Fita-Verde partiu, sobre logo, ela a linda, tudo era uma vez. O pote continuava doce em calda, e o cesto estava vazio, que para buscar framboesa.Daí, que, indo no atravessar o bosque, viu só os lenhadores que por lá lenhavam, mas o lobo nenhum, desconhecido nem peludo. Pois os lenhadores tinham exterminado o lobo. Então, ela mesma era quem se dizia:

“Vou à vovó com cesto e pote, e a fita verde no cabelo, o tanto que a mamãe me mandou.” A aldeia e a casa esperando-a acolá, depois daquele moinho, que a gente pensa que vê, e das horas, que a gente vê que não são.E ela mesma resolveu escolher tomar este caminho de cá, louco e longo, e não o outro, encurtoso. Saiu, atrás de suas asas ligeiras, sua sombra, também vindo-lhe correndo em pós.

Divertia-se com ver as avelãs do chão não voarem, com inalcançar essas borboletas nunca em buquê nem em botão, e com ignorar se cada uma em seu lugar as plebéinhas flores, princesinhas e incomuns, quando a gente tanto por elas passa. Vinha sobejamente. Demorou, para dar com a avó em casa, que assim lhe respondeu, quando ela toque, toque, bateu:

- Quem é?- Sou eu... – Fita- Verde descansou a voz – Sou sua linda netinha, com cesto e pote, com fita verde no cabelo, que a mamãe me mandou.

Vai, a avó, difícil disse:

- Puxa o ferrolho de pau da porta, entra e abre. Deus te abençoe.

Fita-Verde assim fez, e entrou e olhou.A avó estava na cama rebuçada e só. Devia, para falar agagado e fraco e rouco assim, de ter apanhado um defluxo. Dizendo:

- Depõe o pote e o cesto na arca, e vem para perto de mim, enquanto é tempo.

Mas agora Fita-Verde se assustava além de entristecer-se de ver que perdera sua grande fita verde no cabelo atada, e estava suada, com enorme fome de almoço.

Ela perguntou:- Vovozinha, que braços tão magros os seus, e que mãos tão trementes!

- É porque não vou poder nunca mais te abraçar, minha neta... – a avó murmurou.

- Vovozinha, mas que lábios tão arroxeados!

- É porque não vou nunca mais poder te beijar, minha neta...- a avó suspirou.

- Vovozinha, e que olhos tão fundos e parados, nesse rosto encovado e pálido?

- É porque já não te estou vendo, nunca mais, minha netinha... – avó ainda gemeu.

Fita-Verde mais se assustou, como se fosse ter juízo pela primeira vez...Gritou:

- Vovozinha, eu tenho medo do Lobo!

Mas a avó não estava mais lá, sendo que demasiado ausente, a não ser pelo frio, triste e tão repentino corpo".

(ROSA, Guimarães in Fita Verde no Cabelo

domingo, 31 de maio de 2009


O Pote Vazio

Há muito tempo, na China, vivia um menino chamado Ping, que adorava flores. Tudo o que ele plantava florescia maravilhosamente. Flores, arbustos e até imensas árvores frutíferas desabrochavam como por encanto.Todos os habitantes do reino também adoravam flores. Eles plantavam flores por toda a parte e o ar do país inteiro era perfumado.O imperador gostava muito de pássaros e outros animais, mas o que ele mais apreciava eram as flores. Todos os dias ele cuidava de seu próprio jardim.


Acontece que o imperador estava muito velho e precisava escolher um sucessor.Quem podia herdar seu trono? Como fazer essa escolha?Já que gostava muito de flores, o imperador resolver deixar as flores escolherem.No dia seguinte, ele mandou anunciar que todas as crianças do reino deveriam comparecer ao palácio. Cada uma delas receberia do imperador uma semente especial.


– Quem provar que fez o melhor possível dentro de um ano – ele declarou – será meu sucessor.A notícia provocou muita agitação. Crianças do país inteiro dirigiram-se ao palácio para pegar suas sementes de flores.Cada um dos pais queria que seu filho fosse escolhido para ser o imperador, e cada uma das crianças tinha a mesma esperança.


Ping recebeu sua semente do imperador e ficou felicíssimo. Tinha certeza de que seria capaz de cultivar a flor mais bonita de todas.Ping encheu o vaso com terra de boa qualidade e plantou a semente com muito cuidado.Todos os dias ele regava o vaso. Mal podia esperar o broto surgir, crescer e depois dar uma linda flor.Os dias se passaram, mas nada crescia no vaso. Ping começou a ficar preocupado. Pôs terra nova e melhor num vaso maior. Depois transplantou a semente para aquela terra escuta e fértil. Esperou mais dois meses e nada aconteceu. Assim se passou o ano inteiro.Chegou a primavera e todas as crianças vestiram suas melhores roupas para irem cumprimentar o imperador.


Então correram ao palácio com suas lindas flores, ansiosas por serem escolhidas.Ping estava com vergonha de seu vaso sem flor. Achou que as outras crianças zombariam dele por que pela primeira vez na vida não tinha conseguido cultivar uma flor.Seu amigo apareceu correndo, trazendo uma planta enorme:


- Ping, disse ele, você vai mesmo se apresentar ao imperador levando um vaso sem flor? Por que não cultivou uma flor bem grande como a minha?- Eu já cultivei muitas flores melhores do que a sua, disse Ping.- Foi essa semente que não deu nada.O pai de Ping ouviu a conversa e disse:- Você fez o melhor que pôde, e o possível deve ser apresentado ao imperador.Ping dirigiu-se ao palácio levando o vaso sem flor.O imperador estava examinando as flores vagarosamente, uma por uma. Como eram bonitas! Mas o imperador estava muito sério e não dizia uma palavra.


Finalmente chegou a vez de Ping. O menino estava envergonhado, esperando um castigo. O imperador perguntou:- Por que você trouxe um vaso sem flor?Ping começou a chorar e respondeu:- Eu plantei a semente que o senhor me deu e a reguei todos os dias, mas ela não brotou. Eu a coloquei num vaso maior com terra melhor, e mesmo assim ela não brotou. Eu cuidei dela o ano todo, mas não deu nada. Por isso hoje eu trouxe um pote vazio. Foi o melhor que eu pude fazer.


Quando o imperador ouviu essas palavras, um sorriso foi se abrindo em seu rosto e ele abraçou Ping. Então ele declarou para todos ouvirem:- Encontrei! Encontrei alguém que merece ser imperador!- Não sei onde vocês conseguiram essas sementes, pois as que eu lhes dei estavam todas queimadas. Nenhuma delas poderia ter brotado. Admiro a coragem de Ping, que apareceu diante de mim trazendo a pura verdade. Vou recompensá-lo e torná-lo imperador deste país


.(do livro O Pote Vazio – Demi, Editora Martins Fontes)

sexta-feira, 22 de maio de 2009



O Falcão e o cálice

Certa manhã, o guerreiro mongol Gengis Khan e sua corte saíram para caçar. Enquanto seus companheiros levavam flechas e arcos, Gengis Khan carregava seu falcão favorito no braço - que era melhor e mais preciso que qualquer flecha, porque podia subir aos céus e ver tudo aquilo que o ser humano não consegue ver.


Entretanto, apesar de todo o entusiasmo do grupo, não conseguiram encontrar nada. Decepcionado, Gengis Khan voltou para seu acampamento - mas, para não descarregar sua frustração em seus companheiros, separou-se da comitiva e resolveu caminhar sozinho. Tinham permanecido na floresta mais tempo que o esperado e Khan estava morto de cansaço e de sede.


Por causa do calor do verão, os riachos estavam secos, não conseguia encontrar nada para beber até que - milagre! - viu um fio de água descendo de um rochedo a sua frente. Na mesma hora, retirou o falcão do seu braço, pegou o pequeno cálice de prata que sempre carregava consigo, demorou um longo tempo para enchê-lo e, quando estava prestes a levá-lo aos lábios, o falcão levantou vôo e arrancou o copo de suas mãos, atirando-o longe. Gengis Khan ficou furioso, mas era seu animal favorito, talvez estivesse também com sede. Apanhou o cálice, limpou a poeira e tornou a enchê-lo. Com o copo pela metade, o falcão de novo atacou-o, derramando o líquido.


Gengis Khan adorava seu animal, mas sabia que não podia deixar-se desrespeitar em nenhuma circunstância, já que alguém podia estar assistindo à cena de longe e mais tarde contaria aos seus guerreiros que o grande conquistador era incapaz de domar uma simples ave. Desta vez, tirou a espada da cintura, pegou o cálice, recomeçou a enchê-lo - mantendo um olho na fonte e outro no falcão. Assim que viu ter água suficiente e quando estava pronto para beber, o falcão de novo levantou vôo e veio em sua direção.


Khan, em um golpe certeiro, atravessou o seu peito. Mas o fio de água havia secado. Decidido a beber de qualquer maneira, subiu o rochedo em busca da fonte. Para sua surpresa, havia realmente uma poça d‘água e, no meio dela, morta, uma das serpentes mais venenosas da região. Se tivesse bebida a água, já não estaria mais no mundo dos vivos.


Khan voltou ao acampamento com o falcão morto em seus braços. Mandou fazer uma reprodução em ouro da ave e gravou em uma das asas:


“Mesmo quando um amigo faz algo que você não gosta, ele continua sendo seu amigo”.


Na outra asa, mandou escrever: “Qualquer ação motivada pela fúria é uma ação condenada ao fracasso”.


[da tradição oral, em O Livro das Virtudes para Crianças, postado em http://www.academia.org.br/].

Deus-falcão Hórus, divindade do antigo Egito. o olho de Hórus significa proteção e poder.

domingo, 10 de maio de 2009



Ninguém sabia nada sobre dona Susana a não ser que era muito rica e excêntrica, ou seja, ela tinha hábitos estranhos e um pouco diferentes dos do resto das pessoas. Quando uma pessoa é pobre, não é chamada de excêntrica: ela pode ser tida como louca, mal-educada, desligada ou qualquer outra coisa; mas quando se é rico, como a dona Susana, então fala-se em excentricidade.Dona Susana pouco saía de seu quarto e, segundo contavam, vivia em companhia de uma filha ou afilhada — ninguém sabia ao certo — de nome Brigite.

Além de ficar a maior parte do tempo no quarto, dona Susana tinha outro hábito: só contratava para trabalhar em sua casa pessoas que já tivessem passado pelo manicômio, que é um hospital para doidos.Se muita gente se admirava dela contratar ex-birutas para trabalhar em sua casa, outras apreciavam aquele gesto de boa vontade para com essas pessoas que dificilmente conseguiriam algum emprego.As opiniões sobre dona Susana, apesar de poucas pessoas a terem visto, eram sempre assim: elogiosas de um lado e críticas de outro. Claro que mais críticas do que elogiosas.Um dia, espalhou-se a notícia que dona Susana havia sido internada num hospício. Foi um auê! Os comentários foram os mais diversos e seus críticos achavam que só poderia ser esse o destino de uma mulher tão estranha. Afinal, conviver diariamente com loucos só poderia deixá-la louca também.

Porém, as pessoas que a elogiavam, condoeram-se com o fato e passaram a se preocupar com a filha ou afilhada, da qual ouviram falar, mas que ninguém jamais havia visto. Como poderia ela viver sozinha naquela casa, sem a presença de dona Susana? O jeito era uma comissão ir à casa dela e procurá-la para oferecer apoio e ajuda se necessária.E formou-se uma comissão com os mais eminentes cidadãos da sociedade local a fim de fazer a visita.Ao chegar à casa, a comissão foi informada por um empregado que Brigite estava no quarto e que não descia desde a internação de dona Susana.

Discute-se aqui, discute-se ali, resolveu-se que subiriam ao quarto para conversar com a jovem. Mas o empregado afirmou que isso não seria possível, pois Brigite se assustaria com tanta gente estranha entrando em seu quarto de uma vez.Decidiu-se, assim, que apenas uma pessoa iria conversar com ela. E assim foi.Chegando ao quarto, a visita não viu ninguém. O empregado disse, então, que Brigite devia estar embaixo da cama, já que era extremamente tímida.A pobre visita, um respeitável industrial de cabelos brancos, não sabendo o que fazer diante de uma
situação tão excêntrica, sentou-se na cama e começou a conversar com Brigite, informando-lhe a razão da visita. Mas de nada adiantou o falatório, pois a jovem não disse absolutamente nada, nem saiu de baixo da cama.

Não vendo esperanças de sucesso em sua conversa, o industrial voltou à sala e narrou à comissão o acontecido. Outro membro do grupo subiu, descendo após alguns minutos, sem obter qualquer resposta. E assim, uma por uma das visitas foi ao quarto de Brigite e voltou sem nada conseguir.Finalmente, o último visitante subiu. Era um jovem que, tendo certa vez ouvido alguma coisa sobre a beleza dos olhos de Brigite, ficara encantado apenas de ouvir falar. Agora, tinha a oportunidade de conhecê-la e, quem sabe, conquistá-la. Com esse objetivo, ajoelhou-se aos pés da cama e começou a se declarar de forma apaixonada.

Não se passou muito tempo e a coberta da cama começou a mexer-se na barra e, após grande expectativa do jovem, apareceu a cabeça de Brigite, olhando-o com seus grandes e belos olhos castanhos.O jovem, ao vê-la, levantou-se e saiu do quarto correndo, quase chorando.Chegado à sala, ao vê-lo com aquela cara, todos perguntaram a razão de tão desconcertada expressão.A resposta foi a mais inesperada possível:


— Brigite é uma cachorrinha pequinês.

sábado, 9 de maio de 2009


Os Dois Burrinhos

Muito lampeiros, dois burrinhos de tropa seguiam trotando pela estrada além. O da frente conduzia bruacas de ouro em pó; e o de trás, simples sacos de farelo. Embora burros da mesma igualha, não queria ser o primeiro que o segundo lhe caminhasse ao lado.
- Alto lá! – dizia ele – não se emparelhe comigo, que quem carrega ouro não é do mesmo naipe de quem conduz feno. Guarde cinco passos de distância e caminhe respeitoso como se fosse um pajem.
O burrinho do farelo submetia-se e lá trotava, de orelhas murchas, roendo-se de inveja do fidalgo…
De repente…
Osh! Oah! São ladrões da montanha que surgem de trás de um tronco e agarram os burrinhos pelos cabrestos.
Examinam primeiramente a carga do burro humilde e, – Farelo! – exclamaram desapontados – o demo o leve! Vejamos se há coisa de mais valor no da frente.
- Ouro, ouro! – gritam, arregalando os olhos. E atiram-se ao saque.
Mas o burrinho resiste. Desfere coices e dispara pelo campo afora. Os ladrões correm atrás, cercam-no e lhe dão em cima, de pau e pdra. Afinal saqueiam-no.
Terminada a festa, o burrinho do ouro, mais morto que vivo e tão surrado que nem suster-se em pé podia, reclama o auxílio do outro que muito fresco da vida tosava o capim sossegadamente.
- Socorro, amigo! Venha acudir-me que estou descadeirado…
O burrinho do farelo respondeu zombeteiramente:
- Mas poderei por acaso aproximar-me de Vossa Excelência?
- Como não? Minha fidalguia estava dentro da bruaca e lá se foi nas mãos daqueles patifes. Sem as brucas de ouro no lombo, sou uma pobre besta igual a você…
- Bem sei. Você é como certos grandes homens do mundo que só valem pelo cargo que ocupam. No fundo, simples bestas de carga, eu, tu, eles…
E ajudou-o a regressar para casa, decorando, para uso próprio, a lição que ardia no lombo do vaidoso.

Monteiro Lobato

domingo, 3 de maio de 2009


O Príncipe Feliz ( uma linda história)

Oscar Wilde

Muito acima da cidade, sobre uma alta coluna, erguia-se a estátua do Príncipe Feliz. Era toda revestida de finas folhas de ouro e tinha por olhos duas brilhantes safiras e no punho da sua espada cintilava um enorme rubi. A estátua era de todos muito admirada, e com razão.

- É bela como um cata-vento - observou um dos conselheiros da cidade, que pretendia passar por homem de bom gosto artístico;

- só não é tão útil - acrescentou logo, com receio de que o tomassem por homem pouco prático, o que de fato não era.

- Por que não és como o Príncipe Feliz - perguntou um dia uma mãe sensível ao filho que lhe pedia a lua, chorando.

- O Príncipe Feliz nunca se lembra de chorar por coisa nenhuma.

- Ainda bem que há no mundo quem seja inteiramente feliz - murmurou um desiludido, ao contemplar a admirável estátua.

- Parece realmente um anjo - diziam os meninos do orfanato, ao saírem da catedral com as capas de vivo escarlate e os bibes muito brancos.

- Como o sabeis? - observou o professor de matemática.

- Nunca vistes nenhum.

- Ah! temo-los visto em sonhos - responderam as crianças; e o professor franziu o sobrolho e tomou um ar severo, porque não aprovava que as crianças sonhassem.

Uma noite, voou por cima da cidade uma andorinha. As suas amigas tinham partido para o Egito havia seis semanas; ela, porém, se atrasara, enamorada como estava de um junco muito gracioso. Conhecera-o nos princípios da primavera, no momento em que descia o rio perseguindo uma grande borboleta amarela, e por tal forma a atraíra a cintura esbelta do junco, que se detivera para falar com ele.

- Queres que te ame? - perguntara a andorinha, que não gostava de perder tempo com rodeios, E o junco fizera-lhe uma profunda vênia. Voara, então, repetidas vezes à roda dele, roçando a água com as pontas das asas e produzindo mil ondulações de prata. Era este o seu modo de lhe fazer a corte, e prolongou-a por todo o verão.

- Que afeição mais ridícula! - chilreavam as outras andorinhas.

- Ele não tem dinheiro e tem muitos parentes. E, na realidade, o rio estava cheio de juncos. Quando o outono chegou, todas as andorinhas se foram embora. Depois que partiram, começou ela a sentir-se muito só e a enfastiar-se do seu amado.

- O junco não diz uma palavra - observou ela - e receio que seja um pouco leviano, porque está sempre a flertar com a brisa.

E, de fato, sempre que a brisa soprava, o junco fazia-lhe as mais graciosas cortesias.

- Além do mais, ele é muito caseiro - continuou enquanto eu adoro as viagens, e o meu esposo deve, por conseqüência, gostar de viajar também.

- Queres vir comigo? - perguntou-lhe, por fim.

Mas o junco abanou a cabeça; era por demais apegado ao seu lar para poder segui-la.

- Tens andado a brincar comigo - disse ela. - Vou partir para as pirâmides. Adeus! E começou a voar. Voou o dia inteiro e à noite chegou à cidade.

- Onde vou instalar-me? - disse.

- A cidade deve estar preparada para me receber.

E viu então a estátua do Príncipe Feliz sobre a alta coluna.

- Vou-me instalar ali - murmurou.

– Esplêndido lugar e muito ar fresco. E foi pousar entre os pés do Príncipe Feliz.

- Tenho um quarto de dormir dourado - disse baixinho de si para consigo, enquanto olhava em redor e se preparava para dormir. Mas, no momento preciso em que ia a cabecinha debaixo da asa, caiu-lhe em cima uma grande gota de água.

- É extraordinário! - exclamou - Não há uma só nuvem no céu, as estrelas cintilam, e, não obstante, está chovendo! O clima do norte da Europa é realmente horrível. O junco gostava de chuva, mas era apenas por egoísmo. Então, caiu uma nova gota.

- Para que serve uma estátua - disse -, se não é capaz de proteger-me da chuva? Tenho de procurar uma boa chaminé. E já ia levantar vôo. Mas, antes de abrir as asas, uma terceira gota caiu. Levantou os olhos e viu ... Ah! que viu ela? Os olhos do Príncipe Feliz estavam rasos de lágrimas, e lágrimas lhe banhavam as faces de ouro. Tão belo era o seu rosto, batido pelo luar, que a andorinha se sentiu cheia de compaixão.

- Quem és tu? - perguntou-lhe.

- Sou o Príncipe Feliz.

- Por que choras, então? - perguntou a andorinha. - Encharcaste-me por completo.

- Quando eu era vivo e tinha um coração humano respondeu a estátua -, não sabia o que eram lágrimas, pois vivia no Palácio de Sans-Souci, onde é vedado o ingresso à dor. De dia brincava com os meus companheiros no jardim, e à noite dirigia a dança no grande salão de baile. Em roda do jardim corria um muro muito alto, mas nunca me lembrei de perguntar o que se passava além dele. Tudo à volta de mim era belo. Os meus cortesãos chamavam-me o Príncipe Feliz, e eu era feliz, de fato, se o prazer é felicidade. Assim vivi e assim morri. E agora, depois de morto, colocaram-me nesta coluna, tão alto que posso ver toda a fealdade e miséria da minha cidade; e, embora o meu coração seja de bronze, não posso deixar de chorar.

"O quê! Ele não é de ouro maciço?", disse consigo mesma a andorinha, que era suficientemente educada para não fazer observações pessoais em voz alta.

- Lá longe - continuou a estátua numa voz baixa e musical -, numa pequena rua, há uma casa pobre. Uma janela está aberta, e por ela vejo uma mulher sentada à mesa; tem a face magra e cansada, e as mãos vermelhas e feridas da agulha, pois é costureira. Está bordando flores de martírio num vestido de cetim que a mais bela dama de honor da rainha há de vestir no próximo baile da corte. Num leito, a um canto do quarto, está o seu filho doente; tem febre e pede laranjas. Mas ela nada tem para lhe dar além de água do rio, e por isso ele chora.

Andorinha, andorinha, querida andorinha, queres levar-lhe o rubi do punho da minha espada? Os meus pés estão soldados a este pedestal e não posso mover-me.

- Esperam-me no Egito - respondeu a andorinha. - As minhas amigas andam a voar pelo Nilo e a conversar com as grandes flores de loto; em breve irão acolher-se no túmulo do grande rei. O próprio rei está lá ainda no seu caixão colorido, envolto em linho amarelo e embalsamado em especiarias. Ao pescoço tem um colar de jade verde-pálido e suas mãos são como folhas secas.

- Andorinha, andorinha, querida andorinha - disse o Príncipe. - Não queres permanecer comigo uma só noite e ser a minha mensageira? O pequenino arde em sede, e a mãe está tão triste!

- Eu não simpatizo com os rapazes - replicou a andorinha. - No verão passado, quando eu voava pelo rio, havia dois rapazes malcriados, os filhos do moleiro, que estavam sempre a atirar-me pedras. É claro que nunca me acertaram, porque nós, as andorinhas, voamos muito bem; ademais, eu descendo de uma família famosa pela sua agilidade; contudo, era uma falta de respeito.

Mas o Príncipe ficou tão triste que a andorinha teve pena.

- Aqui está muito frio - disse ela. - No entanto, permanecerei contigo uma noite, e serei a tua mensageira.

- Muito obrigado, querida andorinha - disse o Príncipe. A andorinha arrancou então da espada do príncipe o grande rubi, levando-o no bico por cima dos telhados da cidade. Passou junto da torre da catedral, onde estavam esculpidos anjos de mármore branco. Passou pelo palácio e ouviu os sons de uma dança. Uma linda jovem saiu para a sacada com o namorado.

- Como são belas as estrelas - disse-lhe ele -, e quão forte é o poder do amor!

- Espero que o meu vestido esteja pronto para o baile de gala - respondeu ela. - Mandei bordá-lo de martírios; mas a costureira é tão preguiçosa!

Atravessou o rio, e viu as lanternas que pendiam dos mastros dos navios. Passou sobre o Gueto e viu os velhos judeus negociando entre si e pesando moedas em balanças de cobre. Por fim chegou à casa pobre e espreitou. O pequeno agitava-se febrilmente no leito, e a mãe tinha adormecido de fadiga. Entrou e colocou o grande rubi sobre a mesa, ao lado do dedal. Depois voou docemente em volta da cama do pequenino, refrescando-lhe a fronte com as asas.

- Como me sinto refrescado! - disse o pequeno. Devo estar muito melhor. E caiu num sono delicioso. A andorinha voltou para o Príncipe Feliz e contou-lhe o que tinha feito.

- É curioso! - observou ela. - Agora sinto calor, apesar de estar tão frio.

- É porque praticaste uma boa ação - respondeu o Príncipe. E a andorinha começou a pensar e adormeceu. Pensar fazia-a sempre dormir. Mal rompeu o dia, voou para o rio e tomou um banho.

Que fenômeno mais raro! disse o professor de ornitologia, que passava na ponte. Uma andorinha no inverno! E escreveu uma longa carta para a gazeta local, sobre o assunto. Toda a gente a citava porque estava cheia de palavras, mas ninguém a compreendia.

- Esta noite parto para o Egito disse a andorinha, muito alegre com essa perspectiva. Visitou todos os monumentos públicos e ficou muito tempo pousada no cimo do campanário da igreja. Por onde quer que passava, chilreavam os pardais uns para os outros:

- Que estrangeira tão distinta! E isso dava-lhe muito prazer. Quando a lua nasceu, voltou para junto do Príncipe Feliz.

- Tens algum recado para o Egito? - perguntou. Vou partir agora mesmo.

- Andorinha, andorinha, querida andorinha - disse o Príncipe. Não queres passar mais uma noite comigo?

- Esperam-me no Egito - respondeu a andorinha. Amanhã as minhas amigas voarão para a Segunda Catarata É ali que o hipopótamo se deita entre os juncais, e o deus Memnon se senta num grande trono de granito. Toda a noite contempla os astros e, quando desponta a estrela da manhã, solta um grito de alegria e emudece de novo. Ao meio-dia leões fulvos descem à margem do rio para beber, Seus olhos são verdes como os berilos e seu rugido é mais forte que o rugido das cataratas.

- Andorinha, andorinha, querida andorinha - disse o Príncipe. - Longe, muito longe, vejo um jovem numa água-furtada. Está debruçado sobre uma mesa cheia de papéis, e num copo, a seu lado, há um ramo de violetas murchas. Tem o cabelo castanho e ondulado, uns lábios tão vermelhos como a romã e uns olhos grandes e sonhadores. Tenta acabar uma peça para o diretor do teatro, mas está muito frio para escrever mais. Não há lenha no fogão e ele já vai desfalecer de fome.

- Ficarei contigo mais uma noite - disse a andorinha, que tinha realmente um bom coração. Queres que lhe leve outro rubi? - Ai! Já não tenho mais rubis - disse o Príncipe Feliz. - Só me restam os meus olhos. São duas raras safiras há mil anos trazidas da índia. Arranca-me um deles e leva-o. Ele o venderá a um joalheiro, comprará comida e lenha e acabará a sua peça.

- Querido Príncipe - disse a andorinha -, não posso fazer semelhante coisa. E pôs-se a chorar.

- Andorinha, andorinha, querida andorinha - disse o Príncipe -, fazes o que te mando.

Então a andorinha arrancou um dos olhos do Príncipe e voou em direção à água-furtada onde vivia o estudante. Era muito fácil entrar lá por um buraco do telhado. Entrou por ele e penetrou no quarto. O jovem tinha a cabeça enterrada nas mãos e não ouviu o sussurro das asas da ave. Quando ergueu os olhos, encontrou a formosa safira sobre as violetas murchas.

- Começo a ser apreciado - exclamou - Isto deve vir de algum grande admirador. Agora já posso acabar a minha peça. E sentiu-se muito feliz. No dia seguinte a andorinha voou para o porto. Pousou no mastro dum grande navio, e viu os marinheiros tirarem grandes arcas do porão por meio de cordas. "Upa-iça!", gritavam eles, a cada arca que subia. - Vou para o Egito - disse a andorinha. Mas ninguém lhe prestou atenção, e, quando a lua nasceu, voltou para junto do Príncipe Feliz.

- Andorinha, andorinha, querida andorinha – disse ele não queres ficar mais uma noite comigo?

- É inverno - retorquiu ela -, e a fria neve em breve chegará aqui. No Egito o sol brilha quente sobre as palmeiras verdes e os crocodilos estendem-se no lodo, olhando em roda, preguiçosamente. As minhas companheiras já estão fazendo seus ninhos no Templo de Baalbek e as pombas brancas e cor-de-rosa seguem-nas com a vista e arrulham entre si. Tenho que deixar-te, querido Príncipe, mas nunca te esquecerei. Na próxima primavera hei de trazer-te duas lindas jóias em lugar daquelas de que te desfizeste. O rubi será mais rubro que uma rosa vermelha e a safira será azul como o mar imenso.

- Lá embaixo, na praça - disse o Príncipe Feliz está uma pobre menina que vende fósforos. Deixou cair os fósforos na valeta, e estragaram-se; o pai bater-lhe-á se não lhe levar para casa algum dinheiro, e por isso ela chora, a coitadinha. Não tem sapatos nem meias. Arranca-me o outro olho e leva-lho, e o pai não lhe baterá.

- Ficarei contigo mais uma noite - disse a andorinha mas não posso arrancar-te o outro olho. Ficarias completamente cego.

- Andorinha, andorinha, querida andorinha, fazei o que te mando - disse o Príncipe. A andorinha arrancou-lhe então o outro olho e partiu com ele. Ao passar junto da mocinha, deixou-lhe cair a jóia na palma da mão.

- Que bonito pedaço de cristal! - exclamou ela, e correu para casa, muito contente. A andorinha voltou para junto do Príncipe.

- Agora estás cego - disse ela -, e ficarei sempre contigo.

- Não, querida andorinha - respondeu ele -, tens de partir para o Egito.

- Ficarei sempre contigo - disse a andorinha; e adormeceu aos pés do Príncipe Feliz. Todo o dia seguinte esteve pousada no ombro do Príncipe e contou-lhe histórias que tinha visto em terras estranhas. Falou-lhe dos íbis vermelhos que param em longas fileiras pelas margens do Nilo e apanham com o bico peixes encarnados; da Esfinge que é tão velha como o mundo, vive solitária no deserto e tudo sabe; dos mercadores que caminham vagarosamente ao lado dos seus camelos e trazem nas mios contas de âmbar; falou-lhe do Rei das Montanhas da IAM, que é preto como o ébano e adora um enorme cristal da grande serpente verde, que dorme numa palmeira e que vinte sacerdotes alimentam com bolos de mel, e dos pigmeus, que navegam num grande lago, embarcados em largas folhas e andam sempre com as borboletas.

- Contas-me coisas singulares, querida andorinha! disse o Príncipe Feliz. - Mas ainda mais singular que tudo é o sofrimento dos homens e das mulheres. Não há mistério algum tão grande como a Miséria, Voa sobre a minha cidade, andorinha, e dizei-me o que lá vês. Então, a andorinha sobrevoou a grande cidade e viu os ricos a divertirem-se nas suas moradias suntuosas, e os pobres sentados nos portões. Voou até ruelas escuras e viu as faces pálidas de crianças que morriam de fome, olhando distraídas para as ruas sombrias. Debaixo do arco de uma ponte estavam deitados dois rapazinhos, abraçados um ao outro para se aquecerem.

- Temos tanta fome! - diziam eles. - Não podem ficar aqui! - falou-lhes o guarda; e eles saíram para a chuva. A andorinha voltou para o Príncipe e disse-lhe o que vira.

- Eu estou coberto de fino ouro - disse ele. - Tens de tirá-lo folha a folha e dá-lo aos meus pobres. Os vivos cuidam sempre que o ouro pode fazê-los felizes. Folha após folha de fino ouro arrancou a andorinha, até que o Príncipe ficou todo feio e negro. Folha após folha de fino ouro levou aos pobres, e as faces das criancinhas ganhavam cor, e elas riam e brincavam nas ruas.

- Agora temos pão - diziam elas. Por fim, chegou a neve, e depois da neve o gelo. As ruas estavam tão brancas e brilhantes que se diriam feitas de prata. Compridos pingentes como adagas de cristal pendiam dos beirais dos telhados; toda a gente se vestia de peles, e os meninos, com os seus barretes escarlates, patinavam no gelo. A pobre andorinha tinha cada vez mais frio, mas não queria abandonar o Príncipe que tanto amava. Apanhava migalhas à porta do padeiro quando ele não via, e procurava aquecer-se batendo as asas. Por fim, percebeu que ia morrer. Mal teve forças para voar mais uma vez para os ombros do Príncipe.

- Adeus, querido Príncipe - disse baixinho. - Deixas-me beijar a tua mão? - Estou contente por partires, finalmente, para o Egito - disse o Príncipe, - Estiveste aqui muito tempo; mas é nos lábios que deves beijar-me, porque te amo muito.

- Não é para o Egito que eu vou - respondeu a andorinha. - Vou para a Mansão da Morte. A Morte é irmã do Sono, não é verdade? E, dizendo isto, beijou o Príncipe nos lábios e caiu morta a seus pés. No mesmo instante, um estranho estalido soou dentro da estátua, como se alguma coisa se tivesse quebrado. E, realmente, o coração de bronze tinha-se partido em dois. Estava fazendo, sem dúvida, um frio muito intenso.

Na manhã seguinte, o prefeito da cidade, em companhia dos conselheiros, passeava na praça. Ao passar pela coluna, olhou para a estátua e exclamou:

- Santo Deus! Que miserável aspecto tem o Príncipe - Que miserável aspecto, na verdade - exclamaram os conselheiros, que eram sempre da opinião do prefeito. E subiram a ver a estátua. - Caiu-lhe o rubi da espada; perdeu os olhos, e todo o ouro desapareceu - exclamou o prefeito. - Realmente, é pouco mais do que um mendigo.

- Pouco mais do que um mendigo - repetiram os conselheiros. - E até com um pássaro morto aos pés! - continuou o prefeito. - Temos de publicar um decreto proibindo às aves viver e morrer aqui. E o secretário tomou nota da sugestão. E apearam então a estátua do Príncipe Feliz.

- Como já não é belo, já não é útil - disse o professor de arte da universidade. Então fundiram a estátua num forno e o prefeito convocou uma assembléia da corporação para decidir o que havia de ser feito com o metal,

- Temos de fazer outra estátua, evidentemente disse ele -, e será a minha.

- A minha - disseram todos os conselheiros, e discutiram. Da última vez que ouvi falar deles, discutiam ainda. - Que coisa mais estranha! - disse o capataz da fundição,

- Este coração de bronze não se derrete no forno. Temos que jogá-lo fora. E atiraram-no para um montão de lixo onde se encontrava também a andorinha morta.
Traze-me as duas coisas mais preciosas que houver na cidade - disse Deus a um dos seus anjos; e o anjo levou lhe o coração de bronze e a andorinha morta.

Escolheste bem - disse Deus. - No meu jardim do paraíso esta avezinha cantará eternamente e na minha cidade de ouro o Príncipe Feliz há de bendizer-me para sempre.

terça-feira, 28 de abril de 2009


A árvore que falava

Longe, muito longe… bem no coração da savana, vivia uma árvore maior e mais velha do que qualquer outra.
Abrigava, sob a sua corcha, toda a sabedoria de África.
A seus pés, por entre as altas ervas, a leoa espiava o antílope ou a zebra que se tinham afastado do grupo. Como era a única árvore das redondezas, os pássaros, que se empoleiravam nos ramos mais altos, conheciam-na bem. Também as girafas, que comiam as folhas dos ramos do meio, a conheciam. E os leões, que se estendiam sob os ramos baixos para fazerem a sesta…

E assim a árvore conhecia todos os segredos dos pássaros, dos leões, das girafas, das zebras e de muitos outros animais. É que ela escutava com todas as suas folhas.
Até os homens vinham sentar-se debaixo dela no momento das grandes decisões, discutindo os assuntos sérios à sombra dos seus ramos.
A árvore sabia mais sobre o povo dos homens do que o mais velho dos anciãos e o mais sábio dos sábios. Porque ela sabia calar-se, enquanto eles gostavam de falar.

Mas a árvore não guardava para si o seu saber: àqueles que tinham os ouvidos atentos, ela murmurava, em confidência, a resposta a muitas questões.
Quando os seus filhotes estavam suficientemente grandes para voar, as andorinhas, as cotovias e os estorninhos tinham por hábito levá-los até à árvore. Ao cair da noite, esta enchia-se de chilreios. Passado algum tempo, com três bicadas, os pais faziam calar os mais palradores. E cada um escutava o murmúrio que subia da raiz mais profunda até ao raminho mais alto.

No dia seguinte, os jovens sabiam um pouco mais da arte de voar em ziguezague para enganar as aves de rapina que mergulham sobre as presas. E a águia ou o milhafre regressavam às montanhas de mãos a abanar, perguntando-se por que milagre todos os passarinhos daquele canto da savana se tinham tornado, de repente, tão espertos!
E cada girafinha que partia a mascar um punhado de folhas da árvore ficava a saber um pouco melhor como evitar a leoa que caçava. E, misteriosamente, cada leãozinho, depois da sesta ao pé da árvore, desconfiava um pouco mais do riso da hiena que rondava à procura de uma presa fácil.

Mas os homens, esses, partiam tão sisudos e estúpidos como tinham vindo, e a sua tagarelice nada lhes tinha ensinado porque não sabiam escutar.
Eram orgulhosos e arrogantes. Incendiavam a savana com os seus fogos e matavam mais animais do que aqueles que precisavam para se alimentar. Matavam-se até uns aos outros. E chamavam a isso «a guerra». A árvore falava-lhes, como a todos, mas os homens não a escutavam. Por causa deles, a árvore ficou triste. Pela primeira vez, sentiu-se velha e cansada. Se pudesse, ter-se-ia deitado para esquecer. Mas quando se é uma árvore, é preciso ficar de pé a recordar…

Foi então que as suas folhas amareleceram e secaram e, em breve, ficou nua no meio da savana. Os pássaros começaram a desdenhar dos seus ramos e os leões e as girafas também, porque ela deixou de lhes falar.
E todos diziam que ela estava morta.
* * *
Por muito tempo a árvore seca ficou de pé. E parecia que nada viria alguma vez a mudar… O milhafre da montanha estava contente e as hienas riam-se. A leoa perdeu um leãozinho, a girafa uma girafinha e a andorinha, três passarinhos que mal sabiam voar.

Mas, uma manhã, veio um pequeno homem com um ar decidido. Tinha o olhar de uma criança, e esse olhar não reflectia nem fogo nem sangue. As suas mãos não agarravam nem arco nem zagaia. Contudo, era um homem.
Parou ao pé da árvore seca, estendeu os braços e, com as pontas dos dedos, tocou no tronco, muito devagar, ao de leve, como se acordasse alguém que dorme. A corcha estremeceu. E a voz do pequeno homem subiu ao longo da árvore, terna como um cântico muito antigo. O homem falava à árvore, cheio de simplicidade. Depois, calou-se. E encostando a orelha ao tronco, escutou. O vento nos ramos parecia formar palavras e frases. E quanto mais a árvore falava, mais a expressão do homem se iluminava.

Quando a árvore terminou, o homem partiu. Quando voltou, trazia um machado aos ombros. Uma vez perto da árvore, levantou a cabeça em direcção aos ramos e murmurou algumas palavras em tom de desculpa. Depois, firme nas suas pernas, com o cabo do machado bem preso nas mãos, começou a cortar o tronco.
E a madeira ressoou na savana, até aos limites do deserto e das montanhas.

Cada pássaro, cada leão e cada girafa reconheceram a voz da velha árvore.
Todos acorreram para junto dela, mas apenas encontraram um cepo e algumas aparas espalhadas pelo solo.
É que o pequeno homem, ajudado por alguns da sua aldeia, tinha levado a árvore até casa. E, com medo dos homens, os animais não se atreveram a segui-lo.

Uma vez chegados à aldeia, o homem pôs-se a trabalhar. Tinha uma grande ideia: para que a voz de madeira da velha sábia percorresse de novo a savana, iria fazer um tantã.
Um tantã mais sonoro e maior do que qualquer outro. Suficientemente longo para que todos os homens da tribo pudessem tocar em conjunto.

Quando o homem pegava de novo no machado para podar os ramos e deixar, assim, o tronco livre, aqueles que tinham carregado a árvore com ele fizeram-lhe sinal que parasse:
— Pequeno homem, nós ajudámos-te — disseram os homens fortes com as suas vozes grossas. — O nosso trabalho deve ser pago.
— Mas… com que é que vos vou pagar? Eu não tenho nada, bem sabem!
— Deixa-te disso! — insistiram os homens fortes. — Trouxemos a tua árvore, dá-nos a nossa parte.
— Não pode ser — protestou o homem. — É preciso que o tronco fique inteiro para o tantã. Se não, como é que a tribo poderá tocar?
Os homens obstinavam-se a reclamar a sua parte da madeira e o assunto foi levado ao Conselho dos Anciãos.
* * *

Era uma assembleia de homens muito velhos e muito tagarelas. Sempre prontos a pronunciar uma sentença ou um julgamento, tanto a propósito do que conheciam como do que ignoravam. Nada lhes agradava mais do que reunirem-se quando lhes pediam um conselho, e também quando não lhos pediam! Ora, o Conselho tinha por hábito reunir-se debaixo da grande árvore, e os velhos sentiam-se desamparados… pois a árvore tinha sido cortada! O mais velho dos

Anciãos, um pequeno velhinho com a face enrugada como uma ameixa seca, agitou o cachimbo por cima da cabeça e tomou a palavra:
— O Conselho não se pode reunir por falta de um lugar adequado.
E expeliu uma baforada do seu cachimbo.
Os outros membros do Conselho, sentados em círculo, aprovaram com um movimento de cabeça, expeliram, cada um, uma baforada do seu cachimbo e guardaram silêncio.

Os homens fortes, que queriam a sua parte da árvore, e o pequeno homem, que nada queria, não sabiam o que fazer.
Impaciente por começar o trabalho, o homem avançou para dentro do círculo, curvou-se respeitosamente diante do mais velho dos Anciãos:
— Digam-me apenas se posso começar o meu trabalho, já que estais aqui reunidos.
— É verdade que estamos aqui — respondeu o Ancião. — Mas o Conselho não está reunido. Por isso, não pode dar a sua opinião.
Expeliu uma outra baforada e calou-se.

Os homens fortes, impacientes por levar a madeira que lhes cabia, inclinaram-se, por sua vez, diante dos Anciãos e disseram:
— Digam-nos apenas se podemos pegar na nossa parte.
O Ancião nem se deu ao trabalho de responder. Limitou-se a expelir uma baforada do cachimbo e permaneceu em silêncio.
Mas o mais forte, que também era o mais impaciente, deu um passo em frente.

De imediato, o velho homem largou o cachimbo e, com uma voz trémula, acrescentou precipitadamente:
— O Conselho vai reunir… para decidir onde terá lugar o próximo Conselho.
O discurso enfadonho que se seguiu poderia ter durado até ao final dos tempos, se o Conselho não tivesse acabado por decidir… que decidiria mais tarde!
De seguida, os velhos aconselharam o pequeno homem a dar aos homens fortes o que eles pediam. Depois, reclamaram, por sua vez, um pedaço da árvore como recompensa pelo sábio conselho. E o pequeno homem assim o fez, porque era costume dar uma prenda aos Anciãos, como agradecimento pelos seus conselhos.

E cada um se apressou a serrar, a rachar e a atar.
E o pedaço de árvore não tardou a transformar-se em achas, toros e feixes para queimar. Os homens acendiam fogueiras à volta da aldeia para manter afastados os animais selvagens. Ignoravam que os animais tinham ainda mais medo deles do que das suas fogueiras.
* * *
Um pouco desiludido, o pequeno homem reparou na diminuição do tronco, mas disse para si mesmo que, apesar de tudo, ainda chegava para fazer um bom tambor para a tribo.
Lançou-se ao trabalho, cheio de coragem. O machado, no entanto, não era muito adequado para o descortiçamento, por isso decidiu ir a casa de um vizinho pedir emprestado um podão, cuja lâmina curvada faria melhor o serviço.

Como era hábito, o vizinho estava a fazer a sesta e o pequeno homem acordou-o para lhe fazer o pedido.
— Ah! És tu? — disse o vizinho, bocejando como um hipopótamo. — O que queres de mim?
— Podias emprestar-me o teu podão? — perguntou muito educadamente o pequeno homem.
— Eh! — respondeu o vizinho, tão amável quanto um crocodilo a quem interromperam a digestão. — Não me deixas dormir com esse barulho todo… E ainda por cima queres que te empreste o meu podão! E se eu precisar dele?
— Mas… é só por um dia! Amanhã já terei acabado!
— O que me dás em troca?
— Sabes bem que não tenho nada de meu.
— Ah não? E essa árvore? É tua, não é?
— Sim, mas… — começou o pequeno homem.
— Pois bem, dá-me um pedaço para alimentar a minha fogueira e emprestar-te-ei o meu podão.
Assim se fez, já que mais ninguém na aldeia tinha a ferramenta de que o pequeno homem precisava.
Um pouco desiludido, atentou no tronco, agora mais pequeno. No entanto, havia ainda madeira para fazer um tantã para a tribo.
Lançou-se ao trabalho, cheio de coragem. E o descortiçamento depressa terminou.

Mas, quando quis cavar o tronco, apercebeu-se de que não tinha cinzel para o fazer.
De certeza que o vizinho tinha um, mas será que lho emprestaria sem reclamar mais um pedaço da árvore?
Infelizmente, mais ninguém da aldeia tinha cinzel. E era preciso acordar novamente o hipopótamo, amável como um crocodilo.
— Tu, outra vez! — bocejou o vizinho. — O que queres?
— Desculpa — disse o pequeno homem com a sua voz gentil. — Vim devolver-te o podão… e pedir-te, em troca, um cinzel, se fazes o favor.
— Em troca? — zombou o vizinho. — Não há troca nenhuma porque o podão é meu. Dá-me um pedaço de madeira para a minha fogueira e emprestar-te-ei o meu cinzel.
* * *
Assim foi feito. E o pequeno homem, um pouco desiludido, atentou no tronco muito curto. Ainda podia fazer um bonito tantã, não para toda a tribo, mas, mesmo assim, um bonito tantã. Cheio de coragem, meteu mãos à obra e depressa cavou o tronco. Faltava apenas endurecê-lo ao lume, para que fosse mais sólido e para que o seu som chegasse mais longe.

Mas o pequeno homem não tinha fogueira e já havia dado tanta madeira aos outros que não possuía o suficiente nem para atear um fogo. Claro que a fogueira do vizinho crepitava, um pouco mais longe, mas não ousava acordá-lo pela terceira vez.Foi então pedir aos homens fortes a permissão de passar o seu tantã pelo fogo.
— De acordo, — disseram eles — mas com a condição de pores uma acha na nossa fogueira, como todos fazem.
— Mas… já não tenho madeira, já vos dei tudo! — respondeu.
— Ah sim? E isto, isto não é madeira? — perguntou o mais forte dos homens fortes, indicando o pequeno tantã.
Com a morte na alma, o pequeno homem teve de se resolver a cortar um pedaço do tantã antes mesmo de lhe ter ouvido a voz.

E quando pensou naquilo que lhe restava do imenso tronco que a árvore lhe tinha dado, esteve quase para se sentar a chorar e abandonar o seu belo projecto.
Mas caiu de novo em si e disse para si mesmo que, apesar de tudo, se não chegasse para um tantã, chegaria para fazer um grande tambor.
Cheio de coragem, meteu mãos à obra e o que restava do tantã foi rapidamente convertido em djembé. (Djembé é o nome que se dá em África a esta espécie de tambor). Mas o pequeno homem apercebeu-se de que lhe faltava uma pele de cabra para o tambor.

Partiu então à procura do rebanho de cabras. A rapariga que as guardava era ainda quase uma criança, e o pequeno homem pensou que seria mais fácil falar com ela.
— Bom dia — disse à criança.
— Bom dia — respondeu ela. — És tu que dás madeira a toda a gente em troca de uma ferramenta ou de lume?
— Sim, quer dizer… — começou ele.
— O que queres de mim? — interrompeu a criança.
— Apenas uma pele de cabra, uma daquelas que tens por aí. Mas já não tenho madeira para te dar.
— É pena — disse a rapariga. — Porque também eu necessito de um pouco de madeira. Para afastar os leões do meu rebanho não há nada melhor do que uma boa fogueira, disseram-me os Anciãos.
— Oh, por favor, dá-me uma pele. Bem vejo que não te fazem falta — suplicou o pequeno homem.
— Pelo contrário, as minhas peles, troco-as por madeira! — retorquiu a criança.
E, como mais ninguém na aldeia tinha peles de cabra, o homem foi obrigado, uma vez mais, a cortar um pedaço do tambor.
* * *
A pele de cabra era dura e seca, frágil como uma corcha. Antes de a colocar no tambor, era preciso macerá-la, fervê-la, esticá-la, batê- la, para a tornar mais suave e tão sólida como o couro.
Só faltava levá-la ao curtidor.

Aquele que curtia todas as peles da tribo morava sozinho fora da aldeia, perto do rio. O seu trabalho requeria muita água. E os outros não tinham querido que ele se instalasse perto, devido ao cheiro insuportável das peles molhadas.
Mas, por mais longe que o curtidor morasse, também ele tinha ouvido falar da árvore abatida. Por sua vez, reclamou uma parte, como prémio do seu trabalho.
— Mas já não há nenhuma árvore! — lamentou-se o pequeno homem. Ficou apenas um tambor!
— De acordo — concluiu o curtidor. — Contentar-me-ei com um bocado do tambor.
E o pequeno homem cortou e deu-lhe a madeira, e a pele foi curtida, seca e ficou pronta a ser colocada no djembé.

Quando quis esticá-la, deu-se conta de que lhe faltava uma corda para o fazer.
Foi então à procura daquele que na aldeia melhor sabia entrançar cordas. É que a corda que estica a pele de um djembé tem de ser sólida.
Tal como os outros, o entrançador de cordas pediu um pouco de madeira. Apesar dos seus protestos e lamentos, o pequeno homem nada conseguiu. E o tambor ficou ainda mais pequeno.
Regressou a casa perturbado, com a corda ao ombro. Ao ver o tambor tão pequeno, perguntou-se se teria valido a pena o trabalho.

Depois, recordou a árvore que se erguia no meio da savana. Lembrou-se da promessa que lhe tinha feito e sentiu de novo coragem. Depressa a pele de cabra foi colocada no djembé, em arco, e muito esticada por uma rede de nós sólidos e complicados.
* * *
O homem olhou para o seu djembé, finalmente pronto! Claro que era um djembé muito pequenino, bem diferente daquele tantã que ele quereria ter talhado e no qual toda a tribo teria tocado em conjunto. No entanto, o homem não ficou decepcionado, porque era um belo djembé: esculpido, polido, suficientemente largo para as suas pequenas mãos, e suficientemente grande para lhe caber entre os joelhos. Então, quis experimentá-lo. Com as palmas e os dedos pôs-se a tocar. E a voz que saía deste tambor, tão pequenino que mais parecia um tambor de criança, era ampla e vasta e profunda como a floresta.

O homem sentiu-se arrebatado e as suas mãos continuaram a tocar… E a voz imponente do pequeno djembé estendeu-se a toda a aldeia e à savana inteira.
Um por um, todos os membros da tribo aproximaram-se dele. Tinham vindo todos: desde o mais ancião dos Anciãos à pequena guardadora de cabras, do mais forte dos homens fortes ao vizinho crocodilo. Tinham deixado as suas fogueiras, as suas conversas enfadonhas e as suas sestas, para formar um círculo em redor do pequeno tambor. E faziam silêncio.
Do pequeno djembé elevavam-se palavras e frases que diziam toda a savana: o medo da zebra que foge à azagaia do caçador ávido, o sofrimento da erva que curva perante a chama acesa pelo homem, a doçura do vento que murmura nos ramos da árvore… E os homens escutavam. Eles, que só pensavam na caça, na guerra e nas fogueiras, faziam silêncio.

Assim, até aos limites da montanha e do deserto, cada pássaro, cada leão e cada girafa reconheceram a voz da velha árvore. E, graças às mãos do pequeno homem, todos partilharam de novo o seu saber, por muito tempo ainda. Porque, ao som do djembé, o cepo da antiga árvore germinou. Do jovem rebento brotou uma nova árvore.

E, sob a sua corcha de árvore, corria a seiva da sabedoria de África.
A seus pés, por entre as ervas altas, a leoa espiava o antílope ou a zebra que se tinham afastado do grupo. Os pássaros, que se empoleiravam nos ramos mais altos, conheciam-na bem. E as girafas, que comiam as folhas dos ramos do meio, e os leões, que se estendiam sob os ramos baixos para fazerem a sesta.
Até os homens…

Do Spillers
L’arbre qui parle
Toulouse, Milan Poche,
1999tradução e adaptação

quarta-feira, 22 de abril de 2009



O presente da costureira de colchas

Era uma vez uma costureira de colchas que vivia numa casa no cimo das montanhas de bruma azulada. Até o mais idoso dos tetravôs não se lembrava de um tempo em que ela não estivesse lá em cima a coser, dia após dia.
Aqui e ali, e onde quer que o sol aquecesse a terra, dizia-se que ela fazia as colchas mais belas que alguma vez se tinha visto.
Os azuis pareciam vir do mais profundo do oceano; os brancos, das neves mais boreais; os verdes e os púrpuras, das abundantes flores silvestres; os vermelhos, os cor-de-rosa e os cor-de-laranja, do mais maravilhoso dos pores-do-sol.
Algumas pessoas diziam que os seus dedos eram mágicos. Outras murmuravam que as suas agulhas e tecidos eram dádivas do povo das fadas. E outras diziam ainda que as colchas tinham caído de anjos que por ali passavam.
Muita gente subia a montanha, com os bolsos a abarrotar de oiro, na esperança de comprar uma daquelas maravilhosas colchas. Mas a costureira não as vendia.
— Dou as minhas colchas aos que são pobres ou não têm casa — dizia a todos os que lhe batiam à porta. — Não são para os ricos.
Nas noites mais frias e escuras, a costureira descia até à cidade, no sopé da montanha. Percorria as ruas calcetadas até encontrar alguém a dormir ao relento. Então, tirava do saco uma manta acabada de fazer, enrolava-a nos ombros dos que tremiam de frio, aconchegava- os bem, e afastava-se depois em bicos de pés.
No dia seguinte, depois de beber uma chávena fumegante de chá de amoras, começava uma nova manta.
Por esta altura, vivia também um rei, senhor de muito poder e ambição, que, mais do que tudo, gostava de receber prendas.
Os milhares e milhares de lindíssimos presentes que recebia pelo Natal e pelo seu aniversário nunca lhe chegavam. Proclamou, então, uma lei que dizia que o rei passaria a festejar o seu dia de aniversário duas vezes por ano.
Quando isto também deixou de o satisfazer, deu ordens aos seus soldados para procurarem pelo reino as poucas pessoas que ainda não lhe tinham dado prenda alguma.
No decurso dos anos, o rei foi ficando com quase todas as coisas mais bonitas do mundo. Os seus inúmeros bens estavam empilhados um pouco por todo o castelo. Em gavetas ou prateleiras, em caixas e arcas, em armários e sacos.
Coisas que brilhavam, cintilavam e tremeluziam.
Coisas extravagantes e práticas.
Coisas misteriosas e mágicas.
Eram tantas, que o rei tinha uma lista de tudo o que possuía.
Mas, apesar de ser dono de todos estes tesouros maravilhosos, o rei não sorria. Não era nada feliz.
— Deve haver, algures, algo de bonito que me faça, finalmente, sorrir — ouvia-se o rei dizer muitas vezes. — E hei-de tê-lo.
Um dia, um soldado entrou precipitadamente no castelo com a notícia de uma mágica costureira de colchas que vivia nas montanhas.
O rei bateu com o pé no chão.
— E por que razão essa pessoa nunca me deu nenhuma das suas colchas de presente? — perguntou ele.
— Ela só as faz para os pobres, Vossa Majestade — respondeu o soldado. — E não as vende por dinheiro algum.
— Isso é o que vamos ver! — bradou o rei. — Tragam-me um cavalo e mil soldados.
E partiram à procura da costureira de colchas.
Quando chegaram a casa dela, esta limitou-se a rir.
— As minhas colchas são para os pobres e necessitados, e vê-se facilmente que não és nem uma coisa nem outra.
— Eu quero uma dessas colchas — exigiu o rei. — Talvez seja o que finalmente me fará feliz.
A mulher pensou por um momento.
— Oferece tudo o que tens — disse — e então far-te-ei uma manta. Por cada prenda que deres, acrescento um quadrado à manta. Quando tiveres dado todas as tuas coisas, a tua manta estará terminada.
— Dar todos os meus maravilhosos tesouros? — gritou o rei. — Eu não dou, eu recebo!
E, dito isto, deu ordem aos soldados para se apoderarem da linda manta de estrelas da costureira.
Mas, quando se precipitaram sobre ela, a mulher lançou a manta pela janela e uma forte rajada de vento levou-a.
O rei ficou muito zangado. Levou a costureira montanha abaixo, atravessou a cidade e subiu outra montanha, onde os seus ferreiros reais fizeram uma grossa pulseira de ferro. Acorrentaram-na a uma rocha, na gruta de um urso que estava a dormir.
O rei pediu-lhe novamente uma manta, e uma vez mais ela recusou.
— Muito bem, então — respondeu o rei. — Vou deixar-te aqui. Quando o urso acordar, tenho a certeza de que vai fazer de ti um óptimo pequeno-almoço.
Quando, algum tempo mais tarde, o urso abriu os olhos e viu a costureira na gruta, equilibrou-se nas fortes pernas traseiras e soltou um rugido que sacudiu os ossos da mulher. A costureira ergueu os olhos para o urso e abanou tristemente a cabeça.
— Não admira que sejas tão resmungão — disse. — Para além de rochas, não tens nada onde possas à noite descansar a cabeça. Arranja-me um braçado de agulhas de pinheiro e, com o meu xaile, far-te-ei uma almofada grande e fofa.
E foi isso que fez. Nunca ninguém fora antes tão amável para com o urso. Este partiu a pulseira de ferro da mulher e lhe pediu que lhe fizesse companhia durante a noite.
Mas, embora o rei desempenhasse bem o papel de homem ambicioso, desempenhava mal o papel de homem malvado. Durante toda a noite não conseguiu dormir, a pensar na pobre mulher, na gruta.
— Oh, meu Deus, o que é que eu fui fazer? — lamentava-se.
Acordou os soldados e lá marcharam todos em pijama até à gruta, para a salvarem. Mas, quando chegaram, o rei encontrou a costureira e o urso a tomarem um pequeno-almoço de frutos silvestres e mel.
Então, o rei esqueceu por completo a pena que sentira e voltou a ficar zangado. Ordenou aos construtores reais de ilhas que construíssem uma ilha tão pequena que a costureira só lá pudesse ficar em bicos de pés.
Novamente o rei lhe pediu uma manta e novamente ela recusou.
— Muito bem — respondeu o rei. — Esta noite, quando estiveres demasiado cansada para te manteres em pé e quiseres deitar-te para dormir, afogar-te-ás.
E o rei deixou-a só na minúscula ilhota.
Pouco depois de ele partir, a costureira viu um pardal atravessar o grande lago. Soprava um vento forte e violento e o pobre pássaro não parecia capaz de chegar a terra. A costureira chamou-o e ele poisou no ombro dela para descansar. Como o pobre e cansado pardal estava a tremer, a senhora fez-lhe uma capa de um pedaço de tecido do seu colete púrpura.
Quando a ave se sentiu mais quente e o vento parou de soprar, levantou voo de novo, grato pelo que a costureira lhe tinha feito.
Dali a pouco, o céu escureceu devido a uma enorme nuvem de pardais. Com as asas sempre a bater, milhares deles desceram, pegaram na mulher com os seus pequeninos bicos e levaram-na em segurança para terra.
Novamente nessa noite, o rei não conseguia dormir a pensar na senhora, sozinha na ilha.
— Oh, meu Deus, o que é que eu fui fazer? — lamentava-se.
Voltou a acordar os soldados que estavam a dormir, e lá marcharam em pijama até ao lago, para libertarem a costureira. Mas, quando chegaram, ela estava sentada no ramo de uma árvore a coser minúsculas capas cor de púrpura para todos os pardais.
— Desisto! — gritou o rei. — O que tenho de fazer para me dares uma manta?
— Como já te disse — respondeu ela — oferece tudo o que tens e eu faço-te uma manta. E, por cada prenda que dês, acrescento mais um quadrado à tua manta.
— Não consigo fazer isso! — gritou o rei. — Eu adoro todas as minhas lindas e maravilhosas coisas.
— Mas, se elas não te fazem feliz — retorquiu a costureira — para que servem?
— Lá isso é verdade — suspirou rei.
E pensou muito, muito, no que ela dissera. Pensou durante tanto tempo, que as semanas se sucederam umas às outras.
— Pronto, está bem — disse entredentes. — Se tenho de me libertar dos meus tesouros, então que seja!
O rei regressou ao castelo e procurou, de uma ponta a outra, qualquer coisa da qual conseguisse abdicar.
De sobrolho franzido, lá acabou por encontrar um simples berlinde. Só que o rapazinho que o recebeu retribuiu-lhe o gesto com um sorriso tão radiante, que o rei regressou ao castelo para ir buscar mais coisas.
Por fim, pegou num monte de casacos aveludados e foi distribuí- los pelas pessoas vestidas de trapos. Ficaram todas tão contentes, que se puseram a desfilar pelas ruas da cidade.
Mas, ainda assim, o rei não sorria.
Em seguida, foi buscar uma centena de gatos siameses azuis, que dançavam valsas, e uma dezena de peixes transparentes como vidro. Depois, deu ordem para que trouxessem para fora o carrocel com os cavalos verdadeiros. As crianças gritaram de entusiasmo e puseram-se a dançar em redor dele.
O rei olhou à sua volta e viu as danças, a felicidade e a alegria que os seus presentes tinham trazido. Uma criança pegou-lhe na mão e puxou-o para dançar. O rei agora sorria e até soltava gargalhadas.
— Como é isto possível? — exclamou. — Como é possível eu sentir-me tão feliz por dar as minhas coisas? Tirem tudo cá para fora! Tirem tudo imediatamente!
Entretanto, a costureira manteve a sua palavra e começou a fazer uma manta especial para o rei. Por cada presente que ele dava, ela acrescentava mais um quadrado à manta.
O rei continuou a dar e a dar. Quando, por fim, não havia mais ninguém que não tivesse recebido alguma coisa, o rei decidiu ir pelo mundo e procurar outras pessoas que precisassem das suas prendas.
Antes de partir, o rei prometeu à costureira que lhe enviaria um pardal, de todas as vezes que desse alguma coisa.
De manhã, à tarde e à noite, as carroças partiam da cidade, cada uma delas carregada até cima com todos os objectos maravilhosos do rei. E durante anos e anos, os pardais mensageiros foram voando até ao peitoril da janela da costureira, à medida que ele ia esvaziando lentamente os seus carros por onde quer que passasse, trocando os seus tesouros por sorrisos.
A costureira trabalhava sem parar e, pedaço a pedaço, a manta do rei foi crescendo, cada vez maior e mais bonita.
Por fim, certo dia, um pardal cansado entrou-lhe pela janela e poisou na agulha. A costureira compreendeu imediatamente que este era o último mensageiro. Deu o último ponto na manta e desceu a montanha em busca do rei.
Após uma longa busca, encontrou-o finalmente. As suas vestes reais estavam agora em farrapos e os dedos dos pés espreitavam-lhe das botas. Os olhos brilhavam de alegria e o riso era maravilhoso e sonoro. A costureira retirou do saco a manta e desdobrou-a. Era de tal forma bela, que borboletas e colibris esvoaçavam à sua volta. Ergueu- se em bicos de pés e pô-la à volta do rei.
— O que é isto? — exclamou ele.
— Prometi-te há muito tempo — disse ela — que, quando fosses pobre, te daria uma manta.
O sorriso radiante do rei fez cair maçãs e levou as flores a voltarem-se para ele.
— Mas eu não sou pobre — disse. — Posso parecer pobre mas, na verdade, o meu coração está cheio a mais não poder, com as recordações de toda a alegria que dei e recebi. Agora sou o homem mais rico.
— Mesmo assim, fiz esta manta só para ti — disse a costureira.
— Obrigado — respondeu o rei. — Mas só fico com ela se aceitares uma prenda minha. Há um último tesouro que ainda não dei. Guardei-o todos estes anos para ti.
O rei retirou o seu trono do carro velho e frágil.
— É mesmo muito confortável — disse o rei. — E o ideal para quem passa longos dias a coser.
A partir desse dia, o rei voltou muitas vezes à casa da costureira de colchas, que ficava bem lá em cima, perto das nuvens.
Durante o dia, a costureira fazia lindas colchas que não vendia e, à noite, o rei levava-as para a cidade. Procurava, então, os pobres e infelizes, pois nunca se sentia tão feliz como quando dava alguma coisa a alguém.

Jeff Brumbeau

Orchard Books, 2000 tradução e adaptação